Todos
temos medo de partir. Ou ao menos sentimos algum incômodo quando somos
confrontados pelo fato de que a finitude nos aguarda. É até mesmo por isso que tanto
sofremos quando alguém que muito amamos se vai desse mundo. Choramos sua
partida, é claro, teremos que conviver com a sua ausência. Choramos, também, o
aviso que a vida ressoa em nossos ouvidos: um dia seremos nós. Certa vez alguém
me disse que a vida é um presente e que não gostamos de abrir mão dos nossos
presentes. Essa pessoa tem razão. É difícil se soltar de algo que tantas
boas coisas em nós despertam. A vida tem seus os problemas, é verdade. Mas
desde que tenhamos recursos internos e externos para com eles lidar, por aqui
desejamos continuar, pois ela também tem os seus frescores e refrigérios. Então
não queremos partir. E tememos o fim. Só que antes de temer a morte,
deveríamos temer o não viver.
E
para não viver não precisamos deixar de respirar, nem nosso coração precisa
deixar de bater. Com certeza não. Isso porque, como já conversamos em outras
ocasiões, a vida é muito mais do que mecanismos fisiológicos. Eles são
importantes, é claro. Pulmões fortes e resistentes nos garantem horas de
diversão com nossos sobrinhos ainda tão pequenos. No entanto, de que importam
pulmões saudáveis se não arriscarmos? Se não sairmos em busca de aventuras? De
emoções? Se não nos permitirmos, verdadeiramente, à vida? Na preocupação de
morrer, muitos deixam de se preocupar com o viver. Passam por esse mundo
desconectados, distraídos, incertos quanto ao próprio caminho. Seguem a
multidão, fazem o que estão fazendo, mas não se indagam quanto à existência que
gostariam de existir. Condenam-se a uma vida vazia: vazia de significado,
vazia de sentido, vazia de si mesmos.
“A vida passa rápido. Todos
passaremos. Tenha medo apenas de, no final da sua jornada, se arrepender dos
horizontes que não conheceu, dos sorrisos que não deu, dos amores que não
viveu” (Livro Se Não Fosse Por Você)
Nessa
desconexão, muitos deixam de apreciar coisas que preencheriam seus corações e
animariam suas almas. Muitos deixam de se emocionar com novidades, de se
surpreender com descobertas, de se sentirem agraciados por encontrarem na
simplicidade um tesouro inestimável. Distraídos, não percebem a vida passar.
Desconectados, não passam pela vida. Vivos, porém mortos: respiram, mas não
existem. E eu acho que a vida é muito mais do que apenas respirar. A vida é
muito mais do que a própria morte. Até chegarmos ao ponto final temos tanto a
caminhar, tanto a sentir, tanto a viver! A morte é apenas uma parte da
totalidade que é a nossa existência. Uma parte pequena, rápida, que nem
mesmo saberemos quando tiver acontecido. Mas em relação a vida é diferente. Ela
se faz notar todos os dias. E a cada dia desperdiçado somos confrontados
pela sensação de que não saímos do lugar. Não que seremos ousados a partir
de agora e planejaremos uma grande emoção para cada dia que vivermos. Mas
estaremos conscientes quanto à importância de sentirmos a vida a cada momento:
e isso pode acontecer caminhando pelas ruas de Paris ou sentindo a brisa do
Havaí; mas também pode acontecer ao folhear a página de um livro e encontrar
ali uma pequena frase que cure dores sentidas em nosso íntimo ou ao receber o
genuíno sorriso de uma criança quando lhe presenteamos com um doce. Tudo
depende de como estamos no mundo, se conscientes e presentes ou se desatentos e
ausentes. Posso estar apático em Paris e passar mecanicamente pelas palavras
de um livro. Ou posso estar de corpo e alma em qualquer experiência a qual eu
me propuser. A escolha sou eu que faço tendo em mente que, se sinto medo do
fim, devo viver o caminho até ele.
(Texto
de Amilton Júnior - @c.d.vida)
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