A
SENSAÇÃO DE ENFADO
Paira
sobre tantos de nós a sensação de que a vida é enfadonha. Aquela sensação de
arrastamento, de que para seguir em frente é necessário um tipo de esforço em nada
estimulante. Não é como quando estamos extremamente engajados num projeto e
varamos até mesmo a noite, envolvidos em concretizá-lo. É como se o projeto da
vida deixasse de fazer sentido. O que pode guardar, em si, uma importante
verdade: por vezes somos ultrajados do nosso próprio sentido, distraídos do
nosso próprio propósito, passando, assim, a viver experiências que não dizem
respeito aos nossos interesses nem a quem somos. Portanto, vivências sem
significado.
Descansamos,
mas continuamos cansados. Tudo vai bem, ao menos num nível físico. Conseguimos
dormir, alimentamo-nos de forma saudável, até mesmo cumprimos com as obrigações
cotidianas. Mas aquela incômoda sensação de vazio, de incertezas, permanece
ao nosso lado, pairando sobre os nossos pensamentos, fazendo-nos questionar
até que ponto vale a pena.
Eis
o cansaço existencial!
Pode
ser que ele não seja experimentado no corpo, percebido na pele, mas está lá,
preenchendo o nosso coração, influenciando a forma como olhamos para o mundo...
O problema é que nem sempre o ouvimos – nem mesmo sabemos como fazê-lo.
Estamos tão envolvidos com o “ter que dar conta” nesse mundo do
desempenho, que mal temos a oportunidade de olhar para a forma como temos
escrito as nossas histórias. O cansaço, então, aumenta a sua voz. Ele quer
ser ouvido. Ele precisa ser ouvido. Ele tem algo a dizer!
DESEJOS
NÃO RECONHECIDOS
O
curioso é que na maneira como temos levado os nossos dias, muitas vezes no
simples automatismo, cumprindo expectativas e atendendo a demandas, acabamos
distanciados da nossa capacidade de desejar. Sem nem nos darmos conta,
vivemos o desejo de outra pessoa, traçamos o nosso destino a partir de
expectativas que não nos pertencem.
Seja
pelo medo de desagradar; pelo desconforto de assumir as próprias rédeas e, com
isso, ter de encarar as próprias responsabilidades; seja por qualquer outra
razão que nos faça ignorar aquilo que sentimos... O fato é que acabamos
dessensibilizados para o nosso próprio desejo. E uma vida sem desejo é como
uma vida sem cor. É o desejo que nos move, que nos motiva, que nos faz
sair do lugar. Alguém que não deseja, ou não sabe desejar, logo se
entedia com o marasmo de uma vida que não é colorida.
Incapazes
de desejar, ficamos incapazes de reconhecer as nossas necessidades.
Sejam quais forem, por mais simples que pareçam. Agimos como crianças que,
quando lhe oferecem um prato desconhecido, olham para a mãe e perguntam se
gostam daquilo. É como se o mundo soubesse do que precisamos mais do que nós
mesmos.
Só
que ele não sabe.
Isso
porque não conhece os nossos intentos, nem o nosso íntimo. O mundo conhece a
pele, a superfície, aquilo que mostramos ao sol. Mas o nosso interior é
apenas nosso e não deveríamos permitir que ele se contaminasse pelos equívocos
de um mundo que pouco, ou nada, sabe a nosso respeito.
Desprezando
nossas necessidades, ou com dificuldades para reconhecê-las, fomentamos o
cansaço existencial que nos persegue. Porque é o que acontece. Torna-se
cansativo viver uma vida sem a nossa identidade, sem que sejamos satisfeitos em
nossos interesses. Torna-se em nada estimulante perceber que apenas fazemos
parte de uma colcha de retalhos sem forma nem propósito.
Para
além disso, há necessidades tão básicas que, uma vez ignoradas, pesam em nosso
ser. Como a do lazer. Precisamos nos divertir, ter aqueles momentos de
jogar conversa fora, de brincar despreocupados, de colocar as pernas para o ar
e se permitir divagar... No entanto, limitados em nossa capacidade de
reconhecer aquilo de que necessitamos, influenciados por um mundo que cobra
performance o tempo todo, experimentamos culpa no meio de uma sonora
gargalhada... Não deveríamos estar descansando, pensamos. Não deveríamos
desperdiçar um tempo de produtividade, é no que acreditamos... E, assim,
transformamos em enfado aquilo que serviria como alimento à nossa alma.
Pois
o cansaço existencial pode não se dar no corpo, mas com certeza se faz sentir
no espírito!
OUVIR
O CANSAÇO
Ocorre
que, uma vez não ouvido, o cansaço continua lá, aumentando de tamanho... Se
inicialmente é silencioso e sorrateiro, como um vírus que se instala no
organismo sem ser notado, com o passar do tempo ganha tamanho e magnitude,
exatamente como o vírus não identificado que passa a se alimentar de seu
hospedeiro...
É
quando surgem os quadros de adoecimento, sejam eles físicos, sejam eles
emocionais.
Quantos
que vivem ansiedades intensas e depressões profundas e não conseguem entender
os motivos? Talvez tenham vidas aparentemente tranquilas, tidas como normais,
sem grandes complicações, mas sem sentido e propósito. Pois é para isso
que o cansaço existencial nos convida: para que sejamos capazes de
encontrar um propósito à nossa existência!
Esse
propósito, contudo, é pessoal e intransponível. Não posso dar um sentido à sua
vida, assim como você não pode dar um sentido a minha, pelo simples fato de
sermos seres únicos e singulares. A tarefa que nos é proposta na vida é para
que façamos algo dela. Não qualquer algo. Mas algo que nos encante e
fascine, preencha e alegre.
O
que pode passar pelo reconhecimento de que a vida que nos apresentaram não nos
pertence e queremos outros desafios.
Pode
passar pelo reconhecimento de que já não queremos seguir os padrões,
convenções, nem regras que no impuseram.
Pode
ser que signifique entender que não queremos ser advogados ou médicas, como
idealizado por nossos pais, mas músicos e dançarinos, como cravado por nossos
corações.
Em
suma, construir um sentido à nossa vida passa, necessariamente, por uma escuta
interna, pelo resgate do nosso sentir e da nossa capacidade de desejar. Além! Pela
conquista da coragem de criar uma vida autêntica!
OUVINDO
O CANSAÇO
É
por isso que não podemos ser tão reducionistas e considerar que esse cansaço
existencial é normal, coisa da vida adulta, que todo mundo está assim mesmo e
que só precisamos nos distrair para que passe. Porque não é verdade.
Além
de tal cansaço trazer consigo uma mensagem particular a cada um, é semelhante à
sujeira que alguém simplesmente empurra para debaixo do tapete: inicialmente,
pode parecer que o problema foi resolvido, afinal, ele já não é mais visto. Só
que o tempo passa. Aquilo se avoluma. Cheira mal, atrai pragas e adoece!
Relativizar
o cansaço que experimentamos como uma fase é ignorar que há algo muito maior do
que nós no espírito de nosso tempo: a determinação por uma vida performática
que nos distancia de nossa essência, lançando-nos a um abismo de desespero.
Não
deixe, portanto, de olhar com curiosidade para o cansaço que experimenta: se
ele tivesse uma forma, como seria? E se ele tivesse uma voz, como soaria? Tendo
uma voz, significa que tem a capacidade de falar, então, o que ele lhe diria?
Ouça com atenção e afinco, lembrando-se de que é uma mensagem existencial
para que algo seja visto, revisto e refeito. A intenção não é transformá-lo
num humano excepcional, mas numa pessoa sintonizada com o próprio sentir: a
bússola de que necessitamos para encontrarmos o nosso sentido.
Reduza
a pressa e o imediatismo, faça pausas conscientes e deliberadas, afaste-se da
correria e da opressão, filtre aquilo que deixará morar em seu coração e jamais
se sobrecarregue com bagagens que não precisam lhe pertencer.
É
possível construir uma vida mais leve a partir dos limites que colocamos entre
nós e o mundo, e a partir de um olhar crítico para a forma como temos sido
levados a viver nossas vidas: não é normal que sempre tenhamos que consumir
algo de que nem mesmo precisamos, não é normal que nos sintamos incomodados por
descansar ou brincar com nossos filhos naquele momento de folga e não pode ser
normalizado sentir culpa quando experimentamos algum prazer.
Não
é normal que a vida seja colorida por cores que não nos pertencem.
Como
alguém disse uma vez, “a vida tem a cor que você pinta”. Sejamos
ousados! Que tomemos nas mãos os pincéis. E que não os larguemos por
nada. Pois será através deles que construiremos uma vida menos performática
e uma existência mais autêntica!
Se
essas palavras falaram com o seu íntimo, salve o texto e o revisite sempre que
o cansaço lhe convidar a se questionar sobre a própria existência.
Conhece
alguém que poderia se beneficiar com a reflexão? Então compartilhe com ele! Vamos
juntos nos inspirar na busca por um sentido às nossas vidas!
(Texto
de Amilton Júnior - @c.d.vida)
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