Estar na posição de acessar o sofrimento e a dor de alguém é um trabalho delicado quando se fala sobre ser psicólogo. Delicado no sentido de complexo, sim, cirurgicamente complexo, que exige de nós atenção, cautela, sensibilidade e cuidado. Mas delicado também em um sentido artístico, sutil, de gentileza e generosidade para com aquele que se colocou diante de nós na esperança de encontrar uma pequena luz que ilumine o seu caminho. Penso que esse é um lugar sagrado. Isso porque estar diante da alma de alguém é sim sagrado. Aquele humano se desnuda, na medida em que consegue, a um outro ser humano que o acompanha em seu desvelar e em sua descoberta. Daí a importância de haver sutileza e sensibilidade. Além de paciência e temperança. Ter nas mãos o sofrimento de alguém não é algo banal ou corriqueiro, mas profundo e intenso. É algo sagrado.
Cabe a quem se dispõe a estar nesse lugar de acolhimento a tarefa de cuidar para que não desrespeite o sentimento de outra pessoa. Pois isso é muito fácil. Às vezes basta um olhar e é como se estivéssemos invalidando a experiência de alguém. Ainda que aquela experiência nos pareça pequena demais para a magnitude através da qual é manifestada, que não nos esqueçamos que aquela é a experiência daquela pessoa. Quem somos nós para definir a medida de um sofrimento? E ainda que saibamos que aquela pessoa esteja aumentando, que ajuda será essa se a invalidarmos em sua verdade? A invalidação é improdutiva, pois é só com o necessário acolhimento que aquele humano talvez se dê conta de que tem mais recursos do que pensa e, assim, consciente de si, sofra menos por algo “pequeno”.
E esse cuidado de quem escolheu se colocar no lugar de acolher passa pelo estudo, pela preparação, pelo constante aperfeiçoamento prático e teórico. Só que vai além. Esse cuidado também está implicado no aperfeiçoamento pessoal e na construção de um melhor autoconhecimento, pois é só me conhecendo e reconhecendo que consigo conhecer e reconhecer o outro em sua particularidade e individualidade, em sua existência tão ímpar e singular, tão diferenciada da minha própria e assim tenho condições de compreender que a sua dor, por melhor enfrentada que fosse por mim, lhe é real e verdadeiramente angustiante.
Esse não é um lugar qualquer. O lugar de acolher a dor de alguém carrega consigo muito significado. E é por isso que não podemos ocupá-lo de qualquer maneira. Caso contrário podemos intensificar uma dor ao invés de ajudar a curá-la ou torná-la suportável. Esse é um trabalho delicado. Exige a delicadeza de um cirurgião e a sensibilidade de um artista. Há artérias que precisam ser cortadas com precisão, mas também há o tempo certo de fazê-lo que só um coração sensível ao outro é capaz de notar.
(Texto de Amilton Júnior - @c.d.vida)
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