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[Reflexão] Antes da despedida

 

Despedida

Vivemos a vida como se ela fosse durar para sempre. Não... Não quero dizer que somos tão ingênuos e que não nos convencemos do fato de que um dia iremos embora. Porque, sim. Sabemos que faremos a travessia. Temos a noção de que, mesmo contrariados, mesmo não atendidos em nosso desejo pela eternidade, teremos que deixar esse mundo e tudo o que nele nos encanta – nossos amores, nossos amigos, nossas conquistas. No entanto, embora cientes do fato de que a vida acaba, não nos tornamos conscientes do quanto desperdiçamos nosso tempo nesse mundo com coisas banais, superficiais, com equívocos que jamais seriam cometidos se estivéssemos realmente convencidos da maior de todas as verdades: nossa história, um belo dia, enfim terá o ponto final decretado. Um ponto que não admitirá ser trocado por vírgulas. Porque as vírgulas já não estarão mais disponíveis.


Que a gente aprenda a valorizar o abraço antes da ausência. O sorriso antes da lágrima. O momento que antecede a despedida” (Erick Tozzo)


Porque muitos só passam a valorizar a vida e tudo o que nela realmente importa quando já não possuem tempo para fazer valer essa consciência. Muitos só despertam para a limitação e fragilidade de nosso tempo nesse mundo quando o relógio já está avançado demais, os anos se consumaram e os dias se dirigem a um crepúsculo infindável. É quando entram em arrependimentos e lamentações. É quando se culpam pelo tempo perdido, pelos amores não sentidos, pelos amigos deixados pelo caminho, pelas verdadeiras conquistas que não custariam dinheiro algum, mas que foram negligenciadas em função da busca incessante por uma glória e por uma fama que o dinheiro angaria, mas que em pouco – ou em nada – acrescenta em nossa essência, ao nosso interior, a essa alma que clama, todos os dias, por um alimento que apenas aquele que está conectado com a vida consegue adquirir.


É quando o abraço se torna impossível que passamos a desejá-lo e a valorizá-lo com intensidade. É quando o abraço se torna impossível que nos culpamos por não termos abraçado mais os nossos amores, acolhido mais os nossos amigos. É quando o abraço se torna impossível que choramos amargurados, sedentos por apenas um contato humano com aquelas pessoas que a nós eram tão importantes sem que soubéssemos de seu valor – um valor que só nos é revelado quando as distâncias são mais do que abismais, são insuperáveis.


É quando somos confrontados por experiências em muito dolorosas e incômodas que, então, passamos a valorizar os pequenos instantes de refrigério. É quando a brisa suave e sutil se ausenta, deixando-nos com os desconfortos e as opressões da vida, que, então, lamentamos por não termos aproveitado mais, por não termos nos esforçado um pouco mais para que os refrigérios da existência fossem apreciados em sua completude.


É quando a despedida se revela enquanto despedida que nos lamentamos profundamente pelas palavras não ditas, pelos abraços não compartilhados, pelos sorrisos não mostrados. É quando a despedida se revela enquanto despedida que entendemos o quanto erramos ao achar que somos eternos, que a finitude ainda está distante, que o ponto final demorará um pouco mais ou que aceitará ser trocado por uma simples e permissiva vírgula. É quando a despedida enfim se revela enquanto despedida que nos arrependemos amarga e profundamente por, vivendo distraídos, não termos vivido cada momento como se eles tivessem sido o último, afinal de contas, até que vivamos novas experiências, todas até aqui puderam ter sido as finais.


(Texto de Amilton Júnior - @c.d.vida)

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