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[Reflexão] Quando a vida acontece

 


Temos vivido tempos estranhos. Eu diria que temos vivido tempos superficiais. Isso porque as experiências humanas parecem ter perdido o seu sentido e o seu significado. Por exemplo, a cada ano tenho a sensação que passamos cada vez mais de forma automática pelos finais de ano. O Natal parece não ter mais aquela magia. E a noite de Ano Novo parece ter perdido todo o entusiasmo. Dias pelos quais, quando eu era mais ano, aguardávamos ansiosos para que fossem vividos. Dias que, agora, parecem ser como quaisquer outros do calendário. Então é por isso que digo que temos vivido em tempos superficiais, estranhos, dias nos quais somos confrontados pelo vazio de tempos sem sentido.

 Sem sentido.

 Sem sentido é algo que não tem norte. Não tem orientação. Não tem, literalmente, um sentido ao qual se dirigir. É isso o que quero dizer quando menciono estarmos todos vivemos tempos sem sentido. É como se não soubéssemos para onde estamos indo. Talvez nem queiramos saber. Talvez estejamos apenas seguindo as modas dos momentos. Coisas passageiras e efêmeras. Que passam em um piscar de olhos. Estamos sem um norte, sem uma orientação e, portanto, qualquer caminho a nós apresentado tem sido aceito  sem qualquer questionamento, crítica ou indagação. E estamos todos vivendo essa vida sem sentido.

 Uma vida extremamente superficial.

 E digo superficial porque não estamos nos aprofundando. É como se estivéssemos na beira de uma piscina profunda, repleta de possibilidades e aberturas, mas temos nos reduzido à beirada tão superficial e empobrecida. Não mergulhamos. Não adentramos às águas de possibilidades. Ao universo de oportunidades. Temos passado pelas experiências sem vivê-las de verdade, sem senti-las, sem memorizá-las através de nossos sentidos. Temos apenas passado pelos momentos, mas não temos vivido os momentos. Isso porque talvez nem nos lembremos no próximo sábado do que fizemos no sábado passado. Constatação mais certeira que esta quanto ao fato de estarmos tão desconectados da vida e de nós mesmos acredito que seja difícil encontrar.

Mas nos enganamos ao pensar que estamos vivendo por, todos os dias, durante as vinte e quatro horas, termos algo a compartilhar nos stories ou fixar nos feeds.

 A vida tem se resumido a um exibicionismo puro e barato. Por que os programas de confinamento da TV aberta tem perdido a audiência? Porque hoje não precisamos mais esperar por todo um ano para que a próxima edição do programa finalmente vá ao ar e, assim, possamos nos deleitar com a intimidade exposta. Hoje é mais corriqueiro do que antigamente. Hoje estamos quase todos fazendo de nossas vidas uma grande vitrine. Expomos nossa intimidade. Abrimos a nossa singularidade. E, acreditando que estamos vivendo, estamos mais preocupados em mostrar que estamos vivendo quando, na verdade, estamos simplesmente na superfície do que a vida realmente pode ser.

A vida não está acontecendo enquanto você a está gravando ou filmando. A vida está acontecendo quando você a está de fato vivendo.

 Não que tenhamos que nos proibir tirar fotos ou gravar vídeos. Claro que não. O problema é que temos tido uma necessidade doentia e neurótica de, a cada pequeno passo ou minúscula experiência, corrermos às redes expor nossas vivências. Com qual objetivo? Qual é o propósito de tudo espalhar aos quatro ventos? Não há mais intimidade. Não há mais mistério. Não há mais curiosidade. Porque tudo está escancaradamente exposto. Está tudo aí. O tempo todo. Para quem quiser ver. E nos deprimimos quanto sentimos que poucas foram as visualizações e escassos foram os comentários. Porque queremos audiência, queremos plateia, queremos que nossa vida impressione.

 Mas que será que estamos impressionados com a nossa própria existência?

 Nessa ânsia por sermos vistos esquecemos do principal: esquecemos de sermos vividos. Ficamos na superfície, perdemos o sentido, e estamos sempre ansiosos pela próxima paisagem que nem contemplaremos, apenas pararemos o carro no acostamento, tiraremos uma foto de segundos e tornaremos à estrada preocupados com o número de coraçõezinhos que aquele registro será capaz de nos garantir. Para além de curtidas ou comentários, o que vale na vida é a memória de experiência que vivemos. Mas não falo de qualquer memória. Falo daquela que é capaz de mexer com os nossos sentidos quando brotam em nossas mentes. Falo daquela que nos faz sentir o cheiro da pessoa amada, que nos faz ouvir a voz do amigo querido, que nos faz escutar as pisadas de nosso cachorro estimado. Coisas que continuarão conosco mesmo quando essas pessoas (ou animais) já não estiverem mais conosco. Coisas que só ressurgirão e nos confortarão se tiverem sido vividas enquanto estavam acontecendo.

 (Texto de Amilton Júnior - @c.d.vida)

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