Calma! Esse não é um papo moderno sobre ser uma
pessoa acima de qualquer humanidade. Até porque isso é uma ilusão. Não dá para deixarmos a nossa condição
humana. Ela é inerente à nossa vontade. Simplesmente somos humanos. No
entanto, muitos entusiastas, pessoas carismáticas que possuem o talento de
saber usar as palavras certas, apregoam que devemos ter uma certa postura na
vida que nos faça parecer indiferente à condição humana. Tudo bem. Não é
exatamente assim que falam. Mas é
exatamente o que dizem ao tentarem ensinar que devemos estar acima de nossas
emoções, como pessoas que passam pelo fogo sem se queimar ou sem ao menos
ficarem com cheiro de fumaça.
Somos humanos.
Temos emoções.
Se você ficou chateado, não demonstre. Se está
irritado, engula. Ficou triste? Que bobeira. Não dê tanta risada. Chorar? Coisa
de fraco. Preocupar-se? Que bobagem! Emoções? O que são?
Essa é a minha sensação quando vejo palestrantes, ou
influenciadores, tentando transmitir às pessoas que elas precisam estar plenas
e confiantes o tempo todo, sabendo manejar suas reações em todo instante, não
se deixando desequilibrar por nenhum segundo. Isso é falácia. Mas vende. Vende porque o ser humano sempre
teve uma tara pelo sobrenatural e pelos super-heróis. E é isso o que vendem com
esses discursos vazios, vagos, superficiais e ignorantes. Discursos que
parecem pintar as emoções como coisas carnais, que deveriam ser religiosamente
rejeitadas. Discursos que menosprezam a condição humana e parecem querer
incentivar uma sociedade de apáticos.
As emoções servem a alguns propósitos. O principal? À
sobrevivência. Sem emoções por certo que a nossa espécie não estaria aqui para
contar história. Porque nossas emoções
nos ajudam a nos regular e a nos proteger. É pelo medo que não pulamos de
um prédio de trinta metros de altura. É pela dor que enfrentamos uma infecção
que poderia ser fatal. É pela ansiedade que nos colocamos em posição de lutar
contra aquilo que se apresenta em nosso caminho. As emoções nos movem, promovem
a ação, nos deixa vivos. Até a tristeza serve a um objetivo: que possamos nos
recolher, diante de algo que nos desestruturou, para que, assim, possamos nos
reorganizar. Então não dá para ignorar as emoções. Não dá para fingir que elas
não existem e que não nos afligem. Porque é o que os discursos vazios tentam
transmitir. É como se, possessos de raiva, devêssemos agir como robôs.
Nem os monges são assim.
Uma coisa é
desenvolver inteligência emocional. Outra coisa é se tornar um ser humano
apático que engole tudo, introjeta indiscriminadamente todas as coisas e,
quando se dá conta, está por uma gota para transbordar. Isso porque não elaborou suas emoções, não se
atentou a elas nem identificou as necessidades por trás de tais reações.
Simplesmente as ignorou. Desprezou. Negligenciou.
Inteligência
emocional é saber o que fazer com as emoções.
É reconhecer a importância de observá-las, analisá-las e aprender com elas. É
compreender o jeito certo de manejá-las. É saber identificar que numa sala de
aula é inviável ter uma explosão de raiva por causa do professor arrogante,
assim como é insatisfatório dirigir essa raiva ao filho pequeno de dois anos ou
a si próprio com cortes e mutilações. É saber lidar com essa raiva e
depositá-la em outras coisas, em outro momento, nem que seja numa conversa
raivosa com o terapeuta. Lidar com as emoções não é fingir que estamos em um
patamar acima de qualquer ser humano. Ao contrário. Lidar com as emoções é,
antes de tudo, reconhecer que não somos máquinas e que, portanto, estamos
sensíveis a elas. É reconhecer nossa inabilidade por compreendê-las e, assim,
dispor-se a esse contínuo aprendizado. Desenvolver
inteligência emocional não é blindar a sua mente contra as emoções. Porque o
mesmo canal por onde vem a tristeza, pode vir a alegria. Pelo mesmo canal que
vem a ansiedade, pode vir o relaxamento. Bloquear-se às “emoções ruins” é o
mesmo que bloquear-se às “emoções boas”. Porque emoções são emoções. Interessa
o que fazemos com elas.
Cuide das suas.
(Texto de Amilton Júnior)
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