Vivemos em tempos de muitos palpiteiros. Toda hora
tem alguém pronto para dar opiniões sobre os mais diversos assuntos. Muitos, infelizmente, sem qualquer preparo
para aquilo que estão falando. Isso porque uma coisa é falar que bolo de
chocolate é ruim como sendo a minha opinião. E outra coisa é olhar no profundo
de seus olhos e dizer que acredito que, como eu, você não deveria comê-lo. Quem
sou para dizer o que você deve ou não fazer? Que conhecimento tenho a seu
respeito? Sei dos seus gostos e preferências? Será que lhe perguntei o que você
pensa sobre bolo de chocolate? Não. É assim que as coisas têm funcionado. Olham no mais profundo de nossos olhos e
ditam como nossas vidas deveriam ser vividas. Mas não perguntam quais são
nossos sonhos ou nossas inclinações. Não querem saber. Os palpiteiros se acham
os donos da verdade.
Viva a sua vida como você quiser vivê-la.
E falo isso porque tem muitas regras sendo impostas.
Você deveria concluir a faculdade antes dos vinte e três. E antes dos trinta já
deveria ter o seu negócio. Não casou ainda? Já está ficando velho! Já vai se
casar? Que erro absurdo! Namorar? Para quê? Viva a sua vida sozinha! Não está
namorando? O que será tem de errado com você? Ficar em casa em pleno sábado à
noite? Em que mundo você vive? Ir ao cinema em plena tarde de quarta-feira?
Será que você não tem mais o que fazer? Parece que engordou, hein? Está comendo
demais? Nossa! Olha como está magro? Está doente ou começou alguma dieta? O que
você fez no seu rosto? Botox? E essas
rugas? Não vai dar um jeito nelas? Está ficando velha, precisa pintar esses
cabelos! E esses pneuzinhos? Está precisando fazer uma corrida, hein! E por aí
vai...
Mande essas vozes se calarem.
E viva a sua
vida como você quiser vivê-la.
Ninguém lhe pergunta a vida que você gostaria de
levar. Ninguém se senta ao seu lado e lhe permite que fale o que é que faz
sentido a você. Os palpiteiros simplesmente falam incessantemente pautados de
suas verdades e de seus lugares e não nos dão espaço para que falemos quem
somos, quais são os nossos gostos, o que esperamos das nossas vidas. E perceba que esse silenciamento que a nós
é imposto se torna tão profundo que chega uma hora que nem mesmo nós sabemos
qual vida gostaríamos realmente de viver. Estamos bombardeados por tantas
exigências, dicas, conselhos e sugestões, que não temos espaço para ouvir
nossos próprios pensamentos e ter contato com a nossa própria voz. Começamos a
nos perder de nós mesmos. E por vezes cedemos ao tanto de coisas que nos apontam
até que, em um belo momento, começamos a perceber que só estamos sobrevivendo
em uma história sem sentido. História que só não tem sentido porque não tem
sido escrita por nós.
Não importa o que o mundo diga. Faça aquilo que o
fará feliz. Não se esqueça de que a sua morte será morrida por você e ninguém
mais, como Glória Maria, em uma de suas últimas entrevistas, exortou. E se a sua morte não será vivida por mais
ninguém, porque a sua vida teria que ser? Ela é sua. E só você tem o direito de
vive-la!
(Texto de Amilton Júnior - @c.d.vida)
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