É curioso pensar que, em muitas vezes, somos nós os causadores ou mantenedores de
nossos desprazeres, desconfortos e sofrimentos. E é curioso porque o que
mais tentamos fazer na vida é exatamente fugir daquilo que nos desagrada. Mas
como fugir de nós mesmos? Como escapar das obstruções que nós mesmos impomos em
nosso caminho? Não que todos os infortúnios pelos quais passamos sejam causados
por nós. Há coisas que acontecem e que nos atingem por fatores externos, vindos
de fora, do mundo que nos cerca. Há
coisas, contudo, que pegamos com nossas próprias mãos e, em muitos momentos,
sem nem perceber. São escolhas equivocadas, falas mal pronunciadas, o apego
a pensamentos e sentimentos que não precisavam da proporção que tomaram. Além
disso, por vezes somos afligidos pelas contingências do mundo e, até mesmo
quando a realidade já mudou, insistimos no sofrimento que o episódio anterior nos
causou. Daí a importância de uma consciência maior sobre como estamos vivendo
nossas vidas. Pois é somente assim que teremos condições de resolver as
problemáticas que nos afligem.
Se quero ser cuidado, por exemplo, mas trato de
responder com resistência à menor demonstração de carinho, acolhimento e
auxílio que alguém me oferece, como serei de fato cuidado? Não dou espaço, não dou abertura,
não dou permissão, então como cuidarão de mim? O pior nisso é que, inconsciente
quanto ao meu comportamento irredutível, começo a reclamar por considerar que
ninguém me oferece ajuda, ninguém pergunta como estou, ninguém oferece a mim o
seu ombro para que eu possa me reerguer. Enquanto
fico na constante reclamação, não me dou conta do comportamento resistente de
sempre querer fazer tudo sozinho, recusar as ofertas de ajuda e desdenhar das
expressões de afeto. Vou, assim, causando o meu próprio isolamento. Incapaz
de reconhecer a minha ação, no entanto, digo que é o mundo quem está me
isolando.
Não que o mundo seja um santo e nunca possa me
isolar em alguma medida.
Mas aí é uma coisa externa, percebe?
O problema é que
tantos dos problemas que projetamos ao mundo, nasceram de nós.
Pense nos seus problemas. Uma parte deles pode estar relacionada a coisas que você não controla.
Talvez tenham batido no seu carro quando ele estava estacionado e você,
tranquilo, andava pelos corredores do shopping, por exemplo, mas agora,
totalmente contra a sua vontade, está na obrigação de correr atrás do prejuízo.
Mas uma outra parte dos seus
desconfortos pode ter sido alimentada pela sua ação no mundo. Como o fato
de ter ido dormir extremamente tarde depois de uma festa na balada mesmo
sabendo que teria uma prova importante na manhã seguinte. A vida é assim. Uma
construção realizada por nós. Construção que nos servirá por abrigo. Onde
você pretende morar?
(Texto de Amilton Júnior - @c.d.vida)
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