Alguns de nós dizem que gostariam de viver muito.
Mas acabam se reduzindo a uma ideia equivocada. Dizem isso apontando quantidade de tempo como um critério para
concluírem que “viveram muito”. Como se viver oitenta, noventa ou cem anos
fosse o mesmo que “viver bastante”. Não necessariamente. Isso porque quantidade
de tempo não significa qualidade de tempo. De que adiantam cem anos de uma vida
inautêntica? Sendo quem não se é? Fazendo coisas nas quais nem se acredita
apenas por conformismo, comodidade e conservadorismo? Não se aceitando na sua
própria singularidade? Terão esses cem anos valido a pena? Chegarão ao fim com
uma sensação agradável de plenitude? Ou
despertarão apenas arrependimento pelo tempo outrora disponível, mas
desperdiçado?
“Não há razão para pensar que um homem viveu muito
porque tem cabelos grisalhos ou rugas; ele não viveu muito, apenas existiu
muito. Ou você pensa que fez uma longa viagem o homem pego por violenta
tempestade assim que deixou o porto e, jogado de um lado para outro por uma
sucessão de ventos que sopravam de diferentes direções, foi levado a navegar em
círculos? Ele não viajou muito; apenas se movimentou muito” (Sêneca)
Percebe como que quantidade de tempo nada quer
dizer? Isso porque podemos viver cem
anos sendo jogados de um lado para o outro sem tomarmos as rédeas de nossas
vidas e decidirmos por qual caminho realmente queremos trilhar. Como disse
Sêneca, apenas teremos nos movimentado muito, mas sem sair do lugar, sem sermos
tocados pela vida, renovados pela existência, enriquecidos por aquilo que
apenas uma vida vivida com consciência das próprias necessidades e aspirações é
capaz de proporcionar.
Agora, sim, alguém que tenha vivido por “apenas” trinta ou quarenta anos, contudo consciente de sua existência, de seu viver, sendo quem se é, fazendo escolhas congruentes com seus valores e se esforçando por integrar o máximo possível a sua singularidade (o que inclui reconhecer potencialidades e limitações, “qualidades” e “defeitos”), pode ter partido cedo para os nossos olhos, mas completamente satisfeito em seu coração, pois teve a benção da certeza de ter apreciado cada vírgula de tempo que a vida lhe ofereceu. E isso não é muito difícil de fazer. Basta que nos voltemos para dentro, que nos esqueçamos das distrações e ofertas do mundo, que filtremos aquilo que nos é saudável, que assimilemos aquilo que serve ao nosso crescimento e que simplesmente rejeitemos aquilo que só serve à nossa estagnação. Basta que, em um mundo de performances e ilusões, sejamos autênticos e reais – vivamos e existamos de verdade.
(Texto de Amilton Júnior - @c.d.vida)
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