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[Psicologia] Adolescência e a urgência em pertencer

 


PUBERDADE E ADOLESCÊNCIA

 

Pelo título do artigo você deve imaginar sobre o que conversaremos, não é? Mas antes de entrarmos no assunto em si, acredito que seja de grande relevância que possamos fazer um breve contorno em relação à adolescência, esse período tão transformador pelo qual todos nós passamos em nossas vidas.

 

Podemos começar refletindo sobre a diferença entre puberdade e adolescência, comumente vistas como a mesma coisa, já que acontecem de forma conjunta, mas dotadas de particularidades.

 

A puberdade é aquele momento de transformações físicas e fisiológicas no corpo, decorrentes da liberação de hormônios sexuais, que promovem o amadurecimento sexual. A voz engrossa, a primeira menstruação acontece, o corpo estica e muda de forma. Mudanças que, por vezes, se dão de forma repentina, sem avisar, surpreendendo e até mesmo assustando aquele que as vive.

 

Essas mudanças, falando em um sentido biológico, preparam o corpo para a reprodução, mas, em um sentido emocional, provocam incertezas, questionamentos e confusão.

 

A adolescência, muito mais do que uma mera transição entre a infância e o período adulto, é em si uma fase permeada por dificuldades e possibilidades. É durante esse momento que somos convocados a nos adequar às mudanças que acontecem sem que possamos contê-las, impedi-las ou controlá-las. Fazemos uma espécie de luto pela infância que, aos poucos, perdemos. E tentamos nos acostumar com aquele corpo que, ao olharmos no espelho, parece que já não reconhecemos. Experiências com profundos impactos emocionais que mexem com a identidade.

 

Passar por isso não é tão fácil quanto possa parecer. E infelizmente a maneira patologizante como a adolescência é vista só complica as coisas. Rótulos como “aborrescência” ou “rebeldia” em nada contribuem para que possamos olhar para esse momento do nosso desenvolvimento com olhos de compreensão e auxílio, e apenas desconsideram o turbilhão de emoções, sentimentos e confusões que permeiam o ser do sujeito adolescente.

 

Ele está em busca de si mesmo, do seu lugar no mundo e de uma forma de definir em quem está se tornando. Coisas antigas já não encantam mais, discursos repetidos à exaustão já não fazem sentido, isso porque uma nova identidade se forma, trazendo consigo a ânsia pela novidade e pela descoberta daquilo que realmente o toca. A discordância em relação às regras familiares, a insistência em sair com amizades que não despertaram a simpatia da família ou mesmo a mudança repentina no corte de cabelo que já não se assemelha ao estilo da criança que essa pessoa um dia foi, são apenas expressões dessa aventura de se descobrir, de compreender quem se é e de tentar responder à pergunta: o que você quer ser?

 

Rechaçar tais posturas de forma agressiva e opressora só desperta reações ainda mais intensas e disfuncionais, além de prejudicar a relação do adolescente com aqueles adultos que poderiam ser sua referência no mundo, auxiliando-o em suas descobertas e facilitando a sua caminhada por estradas mais seguras.

 

No entanto, a postura compreensiva e paciente, interessada e atenta, pode não fazer aquele adolescente tão desejoso por ser dono de si se abrir imediata e totalmente, mas planta a sementinha da confiança: “há alguém por aqui, nesse mundo tão louco, que saberá me ouvir quando o desespero bater”.

 

É claro que a adolescência, como quaisquer outros momentos de nossas vidas, possui suas fragilidades e dificuldades, vulnerabilidades e riscos, mas também é permeada por uma infinidade de possibilidades! Ao adolescente há um mundo de opções a ser desbravado. Há uma diversidade de formas de exercer a própria criatividade! A adolescência pode ser encantadora e estimulante, desde que ao adolescente lhe seja garantido o direito de explorar sua existência na busca por si mesmo!


 



ADOLESCENTES E PERTENCIMENTO

 

É claro que poderia falar sobre muito mais assuntos ligados ao tema da adolescência, como o luto dos pais pela criança que se transforma e o medo do adolescente pela perda gradual de toda aquela dependência que, descobrimos mais tarde, oferece segurança e proteção. Mas hoje quero me atentar a um tópico em específico que se justifica pelo fato de que vivemos em um período de importantes mudanças tecnológicas que influenciam, diretamente, naquele processo de construção da própria identidade, sobretudo no que diz respeito à necessidade de pertencimento.

Essa necessidade, importante dizer, se faz presente em todos nós, até mesmo nos dias de hoje, quando, por exemplo, juntamo-nos em grupos na internet que compartilham do mesmo ponto de vista político que o nosso. Mas, na adolescência, ela assume um caráter especial, pois nos encontramos na busca pelo nosso novo eu.

 

Esse pertencimento diz respeito a, de fato, pertencer a um grupo. Seja pertencer ao grupo dos leitores de distopia, ao grupo dos fãs de rock, ao grupo dos que passam maquiagem escura e alisam o cabelo... Não importa... Queremos pertencer, afinal, já não nos sentimos reconhecidos em outros espaços – sobretudo quando tudo o que ouvimos é o quanto andamos desobedientes e irreconhecíveis. Só que, para alcançar esse pertencimento, por vezes precisamos agir como agem os membros daquele grupo. O que significa que nem sempre vamos gostar de ler distopia, como nem sempre teremos gosto por aquelas intensas músicas de rock ou nem sempre gostaríamos, realmente, de alisar o cabelo. Mas, ao custo de acabarmos sozinhos, cedemos e, assim, garantimos o nosso lugar.

 

É normal, em certa medida.

Até que começamos a pensar por nós mesmos e entender qual, de fato, é o nosso caminho.

 

Só que até isso acontecer, a exigência interna (e também externa) por fazer parte de algum bando, já nos atormentou o bastante, levando-nos a comparações incessantes que, por vezes, nos fazem nos desconsiderar, deslegitimar e invalidar em nossas próprias necessidades, com consequências que podem se estender por toda uma vida.

 

É como encontramos em um trecho do livro Perdas Necessárias, de Judith Viorst. Ele diz assim: “Para os adolescentes, ‘ser diferente é ser inferior’. Estar certo significa ser igual a todos os outros. Assim, qualquer tipo de desvio da norma da aparência física, ou a maturidade tardia ou prematura, pode ser uma fonte de embaraço, fonte de vergonha e desgosto, e pode formar imagens mentais que permanecem até muito depois de esses fatos físicos terem desaparecido”.

 

Perceba o que pontua a autora: que, aos adolescentes, ser diferente é ser inferior. E é exatamente como muitos pensam, ainda que não seja de forma consciente. Podemos exemplificar com o garoto que, um pouco mais à frente dos seus pares, percebe os primeiros fios de barba despontarem no rosto, enquanto seus amigos continuam com a pele intacta. Preocupa-se, não quer aquilo em si, pensa que há algo errado acontecendo! Mas o oposto também pode acontecer, e esse garoto se ver no outro ponto da experiência: ser o único, dentre todos os seus amigos, que ainda está com o rosto lisinho...

 

Experiências como essa não podem ser impedidas, simplesmente. Mas podem ser acolhidas com respeito, indicando ao adolescente que as coisas acontecem num tempo diferente para cada pessoa, o que não significa que nunca vão acontecer ou que, uma vez acontecendo, sejam algo errado.

 

Não podendo ser impedidas, por um lado, tais experiências podem ser potencializadas em um sentido prejudicial nos nossos dias.


 



ADOLESCENTES E COMPARAÇÃO

 

Antigamente, a adolescência era vivida de um modo diferente: embora tivessem contato com outras formas de ser e outras fontes de comparação, elas se resumiam aos programas de TV, aos colegas do colégio, aos amigos do bairro, aos conhecidos do cursinho de inglês ou aos membros da mesma igreja. O que, claro, já era suficiente para as minhocas na cabeça se alvoraçarem.

 

Atualmente, no entanto, as fontes de comparação são infinitas: na palma da mão, tendo acesso a um universo de experiências, o adolescente de hoje, em processo de construção da própria identidade, tem contato com conteúdos e experiências  numa proporção nunca antes vista, potencializando a máxima de que “ser diferente é ser inferior” – algo corroborado na busca por pertencimento.

 

E é aqui que precisamos ampliar a nossa reflexão e atenção enquanto adultos com o potencial de oferecer um suporte saudável a tantos jovens que vêm se formando em meio a um mundo que bombardeia em suas cabeças uma magnitude de possibilidades que não lhes dá tempo nem espaço para discriminar o que pode ou não fazer sentido dentro de suas realidades.

 

É aqui que o diálogo se faz imprescindível dentro das famílias, das escolas e de quaisquer outros espaços que contem com a presença de adolescentes. Diálogo que problematize o que o mundo apresenta como padrão, como o esperado. Diálogo que trabalhe a percepção de que o pertencimento só é válido quando pertencemos a partir de quem podemos – e queremos – ser.

 

Antes de proibir acesso a redes sociais, por exemplo, por que não conscientizar quanto aos impactos prejudiciais e às vidas fantasiosas que elas exibem? E por que não buscar fomentar alternativas ao seu uso? Por que não criar espaços de conversa nos quais todos se sintam seguros o bastante para compartilhar a própria experiência? Por que não incentivar espaços de convivência nos quais todos possam se expressar a partir da própria verdade, sem a exigência por ser dessa ou daquela forma?

 

Não significa que preferências não possam existir e que, portanto, grupos que giram em torno de determinados temas não possam acontecer. Significa, apenas, que apesar dos grupos podemos ser parte de algo que os supera, sendo aceitos em nossa forma, aceitando o outro em sua maneira!

 

A busca pelo pertencimento, assim como a comparação, são partes comuns da adolescência de qualquer sujeito. Todos passamos por isso e aqueles que ainda virão também passarão. A questão é se essa passagem fará vítimas de demandas incessantes, sem qualquer respaldo, ou se poderá ser vivida com companhia que não julga, mas esclarece e, assim, minimiza as dores de um processo que também pode possuir os seus frescores. A adolescência pode ter reflexos que se estendem por todo o restante de uma vida. Nós, enquanto sociedade, podemos contribuir para que tais reflexos sejam como a luz inspiradora de uma estrela que brilha a quilômetros longe de nós, encantando-nos com o seu fulgor!

 

Acredita que essa reflexão contribuirá para a compreensão de alguém sobre o tema da adolescência? Compartilhe com ele! Vamos juntos construir experiências mais saudáveis a partir do conhecimento.

 

(Texto de Amilton Júnior - @c.d.vida)




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