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[Reflexão] A vida não acontece em três minutos

 


AS FACILITAÇÕES DE NOSSO TEMPO

 

Macarrão instantâneo. Talvez essa tenha sido uma das mais engenhosas invenções culinárias. Não em um sentido sofisticado, gourmet. Longe disso. Mas em um sentido de simplificar o cotidiano das pessoas. Afinal, se você está com pressa, mas sem tempo de preparar algo mais robusto, basta ferver um pouco de água, despejar ali seu macarrão e em três minutos sua fome estará saciada!

 

Fome saciada, porém, não quer dizer nutrição balanceada.

 

Isso porque, se em todos os momentos que estiver com pressa (o que pode ser muito comum dada a forma como levamos a vida) você lançar mão do facilitador macarrão instantâneo, acabará com uma dieta pobre em nutrientes, que não o proverá de vitaminas essenciais para a sua saúde. Com o tempo, os sinais aparecerão! Quedas de cabelos, alterações no peso, cansaço, anemia e por aí vai... Efeitos de uma deficiência nutricional que pode ganhar graves proporções. Efeitos que poderiam ser evitados desde que o consumo do tão saboroso e simples macarrão instantâneo fosse consciente e comedido.

 

Mas há outras facilitações em nossos dias. Exemplos não faltam!

 

Não que eu seja tão velho quanto vai parecer, mas no meu tempo, quando tínhamos um trabalho para casa, sobretudo trabalho de pesquisa, a professora avisava que não queria cópia de livros nem de internet, mas que o texto estivesse em nossas palavras. O que nos obrigava a reunir material, lê-lo com atenção, separar os pontos mais importantes e, então, desenvolver a nossa visão e o nosso entendimento sobre aquilo que pesquisamos. Levava um tempo considerável. Dias, dependendo do grau de dificuldade. Não era tão imediato quanto um macarrão instantâneo.

 

O tempo passou. E hoje um trabalho como esse, que abocanhava horas do meu dia, pode ser feito a partir de poucos toques no teclado do meu computador. Basta que eu formule o que quero para a inteligência artificial e, em poucos segundos, terei um texto bem diante dos meus olhos, pronto para ser usado.

 

Talvez não seja perfeito.

E talvez tenha incongruências.

 

Mas o fato é que se essas coisas não me preocuparem, então aquele trabalho de pesquisa e conexão entre ideias torna-se desnecessário. Alguém, ou algo, sei lá, é capaz de fazer isso por mim.

 

No entanto, assim como o excesso de macarrão instantâneo acaba nos deixando desnutridos, o excesso de suporte para estruturarmos nossos pensamentos pode acabar, com perdão da expressão, nos emburrecendo. A alimentação é para o nosso corpo aquilo que a informação articulada em conhecimento é para a nossa mente. Quanto mais dependentes ficamos das facilitações de nosso tempo, menos força intelectual nos estará disponível.

 

O IMEDIATISMO

 

Esses exemplos são apenas algumas das muitas possíveis formas de ilustrar o imediatismo de nossos dias. Andamos acelerados, apressados, inquietos, contando os dias no calendário, as horas no relógio, ansiosos por um futuro que parece nunca chegar. E esse futuro nunca chega não é por acontecer algum evento cósmico que não compreendemos. O futuro cobiçado se torna cada vez mais distante porque nossos desejos e interesses se tornam cada vez mais imediatistas e pulverizados.

 

Vemos isso na construção da própria vida, por exemplo.

 

Muitos de nós, e aqui me incluo também, por vezes nos comparamos com vidas as quais assistimos por aí. Acompanhamos as viagens que são feitas, os cursos que são concluídos, as experiências que são vividas com entusiasmo!

 

Olhamos para nós e não conseguimos encontrar encanto em nossa própria existência.

 

A viagem que planejamos depende daquele dinheiro que batalhamos para ajuntar. O curso que queremos concluir depende da aprovação naquela matéria que não conseguimos passar. As experiências entusiasmantes dependem da descoberta real do que é que nos entusiasma. Coisas que levam tempo, exigem foco e cobram paciência.

 

Não deveríamos basear o nosso tempo a partir do tempo do outro.

Sobretudo por sermos pessoas com condições e limitações diferentes.

 

De maneira que é muito mais produtivo nos concentrarmos em nosso próprio progresso e desenvolvimento, por mais lento que ele seja, por mais vagaroso que nos pareça.

 

É como adotar uma alimentação mais saudável. Ou optar por colocar as próprias ideias no papel e articulá-las a partir da própria capacidade. Os benefícios de tais posturas não são notados imediatamente. Leva tempo para que os nutrientes sejam assimilados pelo nosso organismo e, então, nos recarreguem com ânimo e disposição. Leva tempo para que estruturar o próprio conhecimento se torne uma tarefa mais fácil.

 

Só que vale a pena.

 

E vale a pena porque ganharemos uma saúde melhor, teremos mais disposição para viver, inclusive para ir atrás daqueles sonhos que são apenas nossos. Vale a pena porque ganharemos uma visão crítica sobre a vida e não será qualquer pensamento que nos ludibriará pela eloquência de sua construção.

 

Vale a pena, sobretudo, porque com uma saúde melhor seremos mais independentes, e com capacidade de pensar por nós mesmos seremos mais livres!

 

QUANDO BATE A FRUSTRAÇÃO

 

O imediatismo de nossos tempos, além da falta de nutrição tanto física quanto mental, também traz outro problema que gostaria de pontuar: a dificuldade em lidar com frustrações. Isso porque é muito fácil, até mesmo estimulante, colocar instruções numa ferramenta que nos entregará um trabalho pronto se comparado com a arte de sentarmos por algumas horas, lermos sobre o assunto e, então, construir a nossa narrativa sobre aquilo que descobrimos. Chamo de arte porque há algo de encantador em colocar no papel aquilo que é desenhado pelas nossas sinapses. É encantador dar vida a um mundo e a um universo que até então só existia em nossos pensamentos.

 

Só que isso leva tempo. E por vezes é frustrante. Uma vez que nem sempre o resultado daquilo que fazemos sai exatamente da forma como imaginamos.

 

Por vezes a vida nos surpreende com eventos que fogem ao nosso controle ou nos confrontam com as nossas limitações. É como escrever um texto. Pode ser que nos falte o vocabulário, ou percebamos certos vícios de linguagem que deixam feio o nosso trabalho. Pode ainda acontecer de, justo no ápice de nossa criação, a energia cair e o computador desligar. É frustrante olhar para nosso texto tendo que corrigir termos, reformular frases, pensar em formas mais criativas e claras de transmitir alguma ideia. Assim como é frustrante ter de recomeçar o nosso trabalho depois que aquele fluxo de ideias diminuiu. Se não desistirmos, porém, o desafio de procurar por palavras mais bonitas e coerentes aumentará, em muito o nosso vocabulário. E se formos persistentes, a inspiração retornará a partir de nossa vontade!

 

Para além de textos, a vida pode ser frustrante. É o emprego que não conseguimos, é o empréstimo negado, é a nota na prova que não foi o bastante, é o não daquela pessoa por quem nos apaixonamos que nos faz duvidar de nossos atributos. Coisas que vão no sentido contrário ao imediatismo de nossos dias, por exigirem de nós uma paciente reflexão: o que precisamos fazer, ou o que em nós precisamos mudar, para que nossos objetivos se tornem alcançáveis?

 

Só que não para por aí.

 

A reflexão exigirá prática. Precisaremos exercer aquilo que conseguimos identificar. E isso leva tempo. Não há como pedir para a inteligência artificial que resolva por nós nossos impasses e problemas. É de nossa responsabilidade nos desenvolvermos em nosso melhor.

 

Macarrão instantâneo é gostoso e textos prontos podem ter o seu momento de uso. Apenas não resuma a vida ao imediatismo das facilidades. Desafie-se. Coloque-se em situações que o façam se desenvolver, que o estimulem ao seu melhor. Não naquela ideia barata de melhor versão, como se você fosse um produto a ser colocado na prateleira do supermercado. Mas no sentido de despertá-lo para o fato de que uma vida boa não é a vida facilitada, mas a vida na qual tivemos a oportunidade de aprender e praticar tal aprendizado.

 

O emprego dos sonhos talvez demore, a viagem da infância talvez precise esperar um pouco mais e o amor da sua vida pode ser que ainda esteja a caminho. Não queira apressar as coisas, elas acontecem na medida em que nos preparamos para elas.

 

Continue a se qualificar para aquele emprego. Continue a se organizar e planejar para aquela viagem. Continue atento ao seu redor para não deixar escapar o amor quando ele lhe sorrir.

 

Acima de tudo, continue em seu caminho, na sua estrada. Que as estradas dos outros lhe sirvam de inspiração, jamais de determinação. E que ao longo da caminhada as frustrações lhe sejam como orientações: seja sobre quando melhorar, seja sobre quando parar de insistir naquilo que já não tem por que continuar.

 

Se essas palavras tocaram seu coração, salve o texto e o revisite sempre que precisar desacelerar. E se conhece alguém que também precisa colocar um pouco mais de calma na própria caminhada, compartilhe com ele, vamos juntos viver com mais serenidade!

 

(Texto de Amilton Júnior - @c.d.vida)





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