Avançar para o conteúdo principal

[Reflexão] O medo da rejeição

 


Já se sentiu alheio a si mesmo em relação a certas situações em sua vida? Já se viu fazendo coisas, ou falando palavras, que não correspondiam exatamente à sua vontade, mas que foram manifestas em nome de cumprir o roteiro, agradar, atender aos caprichos do mundo?

 

É bem verdade que, em interação com outras pessoas, por vezes se faz necessário que moldemos algumas de nossas atitudes em nome da boa convivência, mas quando isso se torna uma constante, afastando-nos de nossas verdades, acabamos distanciados de nós mesmos, apertando-nos para caber na forma tão limitada e estreita a partir da qual somos vistos.

 

E tudo começa quando ainda somos bem pequenos.

 

É comum que, em um dia estressante, nossos cuidadores não nos atendam imediatamente ao clamor de nossas necessidades, é quando negligenciam algum cuidado ou não acolhem a expressão de alguma emoção. Entretanto, quando essas faltas se repetem formam-se feridas em nossa pele existencial, convocando-nos a adotar maneiras de agir que nos façam ser ouvidos e vistos.

 

Se percebemos que só somos correspondidos quando escondemos certas emoções, engolimos determinadas palavras e agimos a partir de determinadas condutas, internalizamos que tais emoções são erradas, tais palavras jamais poderão ser proferidas e que nossas atitudes, por mais que tenham ali a nossa autenticidade, não são bem vistas: precisamos agir como a personagem que começamos a criar, a personagem que é vista, que é acolhida, em detrimento da nossa essência por vezes rotulada como feia e rejeitada.

 

Crescemos e nos tornamos pessoas em busca de aceitação.

 

A BUSCA POR ACEITAÇÃO

 

Inevitavelmente, há cenas da vida adulta que nos remetem às cenas infantis. Como a discussão com o namorado, por exemplo, a partir da qual alguém pode se lembrar das discussões com a mãe, do tratamento de silêncio que recebia nessas ocasiões e do quanto aquilo era angustiante pelo temor de ter perdido um amor tão essencial. O que a pessoa faz? Submete-se, esconde os incômodos, força-se a demonstrar que está tudo bem, enquanto se inibe na expressão de seus desejos, de suas opiniões...

 

Ou alguém que, ao ouvir o chefe falar mais alto, sente uma vontade incontrolável de chorar, pois é como se ouvisse o pai sempre tão exigente lhe cobrando por notas melhores, por um desempenho melhor no esporte, por uma performance que nem sempre ele conseguia alcançar e que nem mesmo queria, já que seus interesses na vida eram outros e não se resumiam a sucesso em cálculos matemáticos ou em dribles perfeitos numa partida de futebol.

 

Há ainda aqueles que não conseguem ouvir ninguém e, portanto, usam-se de uma forma soberba, ensurdecendo-se aos outros, agindo exatamente quando, ainda tão pequenos, ouvindo tantas cobranças e xingamentos, isolavam-se na própria mente a fim de evitar a dor causada por palavras perfurantes e, ao invés de tentar se defender, correndo o risco de uma desaprovação maior, mantinham a suposta aceitação daqueles a quem amavam através do silêncio que os levava para mundos longínquos.

 

A busca por aceitação é o que, em tantos momentos, nos leva a alienar partes que nos compõem, sentimentos que experimentamos, ideias que articulamos, pois tememos a rejeição daqueles que nos cercam caso ousemos mostrar ao mundo a verdade sobre nós.

 

Não percebemos, com isso, que aqueles que só aceitam a distorção de nossa imagem, não nos aceitam de fato, mas uma personagem que criamos para sobreviver. Seria isso aceitação realmente?

 




MERECIMENTO

 

Com tantas reprovações ao longo da vida, passamos a acreditar que podemos não ser suficientes para as pessoas, para as situações, para as conquistas e experiências. Inferiorizamo-nos em relação a alguém, evitamos situações e experiências por não nos considerarmos capazes de vivê-las, nem mesmo conseguimos celebrar nossas conquistas por acreditarmos que não fizemos mais do que a nossa obrigação. Em suma, traçamos nosso destino a partir do olhar limitado daqueles que nos olham.

 

Talvez devêssemos parar para pensar por perspectivas diferentes e nos darmos conta de que em certas ocasiões não somos nós os insuficientes, os não merecedores, mas são aquelas pessoas que não nos merecem e aqueles lugares que não dão conta do potencial que guardamos no peito!

 

Não se trata de nos transforamos em pessoas altivas, soberbas, egocêntricas, que acreditam que são autossuficientes, que não dependem de nada, de ninguém, que o mundo não lhes basta, que são boas demais para o resto da humanidade. Isso é de um equívoco sem tamanho.

 

Trata-se de aprendermos a reconhecer o nosso valor.

 

Só que com uma vida de reprovações, rejeições, comentários maldosos sobre a nossa forma de ser e palavras que discriminavam o quão insatisfeitos se sentiam em relação a nós, é mesmo difícil passar a se acolher, a se respeitar, a se sentir digno de experiências que nos enriqueçam, que nos nutram, que nos satisfaçam e deem conta da magnitude de nosso impacto no mundo. Contudo, é um caminho que precisamos percorrer em nome do nosso bem-estar, do direito que temos a uma vida satisfatória!

 

Isso passa pelo reconhecimento de que chegará o momento de deixar relações que não conseguem nos enxergar, de deixar lugares que não nos deixam confortáveis, de nos afastar de situações que apenas nos diminuem e de nos desvencilhar de crenças tão arraigadas que a todo momento contaminam nossos pensamentos nos fazendo duvidar de nossa capacidade.

 

Chegará, portanto, o momento de nos permitirmos a relações que saberão nos acolher, a lugares que saberão nos reconhecer em nossa singularidade, de situações que nos incentivarão a explorarmos ainda mais o que trazemos na alma, a crenças que servirão como suporte interno para que possamos nos colocar no mundo e viver a vida.

 

Chegará o momento de nos libertarmos da prisão que é tentar ser aceito por aqueles que não estão preparados para deixarem as próprias expectativas e ilusões a fim de vislumbrar a particularidade que nos define.

 

ENCONTRANDO A ACEITAÇÃO

 

Bem sei o quanto somos necessitados de pertencimento, daquele olhar confirmador que nos faz sentir que, para além de vistos, somos compreendidos em nossa existência. Só que por vezes teremos que aceitar o incômodo fato de que nem sempre encontraremos naqueles nos quais buscamos a aceitação que nos atrai.

 

Isso nos ajudará a não desperdiçar o acolhimento e consolo daqueles que poderão nos receber em seus braços abertos e ternos.

 

Não somos mais aquelas crianças dependentes de cuidados, portanto, não precisamos mais nos submeter a olhares tão rigorosos. Talvez o primeiro passo seja aceitarmos a nós mesmos, limpando-nos de tudo aquilo em que fomos levados a acreditar a nosso respeito, para que, então, desfrutando de paz interior, consigamos nos abrir àqueles que nos aguardam.

 

Se essa reflexão tocou seu coração, salve por aí e a revisite sempre que sentir necessidade.

 

Ouça, também, um episódio especial do Insight Psicologias no qual falo mais sobre o medo da rejeição e a busca por aceitação. Basta clicar aqui!

 

Pensou em alguém que poderia se beneficiar ao ler essas palavras? Compartilhe com essa pessoa! Quem sabe seja exatamente o que ela precisa para dar início a autoaceitação?!

 

Foi um prazer!

 

(Texto de Amilton Júnior - @c.d.vida)




~~~~~~~~ 


Salve o blog no seu navegador e acompanhe novas reflexões às terças e quintas a partir das 06h da manhã!

 

Conheça alguns serviços:

 

Serviço de Psicoterapia Online ou Presencial

Consultoria em Psicologia

 

Você pode continuar acompanhando minhas reflexões:

 

- Perfil no Instagram (@c.d.vida)

- Página no Facebook (Coisas da Vida)

- Livros gratuitos (clique aqui)

- Ouça, ainda, o podcast Insight Psicologias no Spotify

- E não deixe de conferir o canal Coisas da Vida no YouTube!

 

É sempre um prazer receber a sua atenção!

 

 


Comentários

Mensagens populares deste blogue

[Reflexão] As suas cores

  Acho que a vida seria realmente muito chata se não houvesse música. E eu adoro ouvir as mais diversas. Meu artista favorito é o Michael. E por conta dele acabei conhecendo outros que também são incríveis e extremamente talentosos. Dentre eles, Cyndi Lauper. E há uma música que ela canta que a mim, ao menos, toca de uma forma muito profunda. Fala sobre aceitação. Mais exatamente sobre autoaceitação . Trata-se de “True Colors” que, traduzindo, ficaria como “as cores verdadeiras”. E, embora, ao longo da letra ela fale sobre aceitar as nossas cores, é perfeitamente possível que compreendamos como a aceitação de nossas características, daquelas coisas que nos distinguem das demais pessoas que habitam o planeta, elementos que, por vezes, são difíceis de serem aceitos por nós e acabam, algumas vezes, alienados, rejeitados, desprezados, ignorados. Mas são nossas coisas. São as nossas particularidades. São as coisas que nos permitem ser tão singulares e ímpares em um mundo de bilhões de ...

[Reflexão] Ouvir o cansaço

  A SENSAÇÃO DE ENFADO   Paira sobre tantos de nós a sensação de que a vida é enfadonha. Aquela sensação de arrastamento, de que para seguir em frente é necessário um tipo de esforço em nada estimulante. Não é como quando estamos extremamente engajados num projeto e varamos até mesmo a noite, envolvidos em concretizá-lo. É como se o projeto da vida deixasse de fazer sentido. O que pode guardar, em si, uma importante verdade: por vezes somos ultrajados do nosso próprio sentido, distraídos do nosso próprio propósito, passando, assim, a viver experiências que não dizem respeito aos nossos interesses nem a quem somos. Portanto, vivências sem significado.   Descansamos, mas continuamos cansados. Tudo vai bem, ao menos num nível físico. Conseguimos dormir, alimentamo-nos de forma saudável, até mesmo cumprimos com as obrigações cotidianas. Mas aquela incômoda sensação de vazio, de incertezas, permanece ao nosso lado, pairando sobre os nossos pensamentos, fazendo-nos qu...

[Reflexão] O todo é maior que a soma das partes

  “O todo é maior que a soma das partes” . Essa é uma máxima dentro da Psicologia da Gestalt que, dentre outras, é uma teoria que fornece embasamento à Gestalt-terapia , uma forma de olhar o ser humano é abordá-lo em psicoterapia sobre a qual podemos conversar em outro momento. Aqui, o que nos interessa é o significado dessa expressão que, a princípio, pode parecer confusa ou difícil de compreender, mas que, após alguns instantes de assimilação e entendimento, pode nos ajudar a encarar a vida por outros olhos, com perspectivas novas que nos façam valorizar, apreciar e até mesmo agradecer por cada parte que nos compõem.   Um exemplo bem simples – e até mesmo clichê – para que possamos compreender essa verdade é a do bolo , uma totalidade que vai para além dos ingredientes que o constroem . Isso porque não basta que agrupemos a margarina, os ovos, a farinha de trigo, o fermento, o leite e o açúcar. Não basta uma simples e limitada somatória dessas partes. Não teremos um bolo. T...