Antes
da gravação de um filme, por exemplo, ou de um episódio de alguma série, e
também antes de alguma peça ser, enfim, levada ao teatro, os envolvidos nas
obras participam de ensaios. Os diálogos são treinados, os gestos, os movimentos,
as cenas, enfim, tudo é detalhadamente ensaiado. E esses ensaios permitem
que erros sejam corrigidos, excessos sejam diminuídos e aquilo que precisa de
mais intensidade seja, então, trabalhado. Os atores criam intimidade entre si,
vão desenvolvendo a importante familiaridade que os ajudará e contracenar com
maior naturalidade. O texto é decorado. As cenas se tornam previsíveis. E,
então, a ação concreta finalmente acontece. A gravação é feita. A apresentação
ocorre. A obra é realizada.
E
essas coisas são baseadas na vida, de alguma forma. Um filme, por exemplo, pode
retratar o drama de uma mãe que, sendo ilegal em determinado país, é separada
de seu filho ainda pequeno, algo que acontece na vida real. Uma peça de teatro
pode trazer a história de uma mulher que, vítima de violência doméstica, é
convidada a um mergulho em si mesma a fim de se fortalecer para colocar fim ao
ciclo de violência, outro fato presente em nosso cotidiano. A vida é
representada nessas obras que, antes de enfim serem apreciadas pelo grande
público, puderam ser ensaiadas à exaustão. A vida, contudo, sendo inspiração
a produções cinematográficas e teatrais, não permite ensaios. Ela acontece
no imprevisto. No inesperado. No exato momento do tempo presente. De maneira
que não dá para pensar em todos os desdobramentos, em todas as nuances, em cada
pequenino detalhe. Caso contrário, se ficamos bitolados em busca de
controle, a trama da vida se desenrola e dela acabamos não participando.
“A vida é uma peça de teatro que
não permite ensaios. Por isso, cante, dance, ria e viva intensamente cada
momento, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos” (Charles
Chaplin)
Quantas
vezes desperdiçamos a vida em busca de certezas! Queremos saber com exatidão,
queremos ter tudo pensado e planejado, é quase como se quiséssemos fazer como
os grandes atores que têm a chance de simularem cenas e situações antes de,
enfim, executá-las. A vida não é assim. Nós nem mesmo temos em mãos um
roteiro especificando falas, cenários, enredos… Ao contrário. Tudo aqui é
extremamente imprevisível. Talvez você tenha o planejamento da semana, pode ser
que tenha até mesmo o planejamento de todo o ano, mas será que ele é tão
certeiro assim? E será que acontecerá exatamente da forma como você o imaginou?
A viagem talvez deva ser adiada. E a consulta com o médico pode acabar
desmarcada porque ele precisou fazer uma cirurgia de emergência. Percebe como
tudo está passível a ficar bem longe do nosso obsessivo controle? Entender isso
pode ser incômodo, eu sei, mas ao mesmo tempo é libertador. Não que vamos
abrir mão dos planos e deixar de organizar a nossa vida, apenas não ficaremos
refém de roteiros rígidos, inflexíveis, que nos encaixotam e aprisionam, antes
teremos criatividade o bastante para, diante do inesperado, agir
inesperadamente também como os grandes e talentosos atores que, mesmo tendo
ensaiado cansativamente, não deixam de improvisar quando a beleza do inesperado
da arte se sobrepõe a qualquer roteiro humano.
(Texto
de Amilton Júnior - @c.d.vida)
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