Se o
amor, com toda a sua formosura e beleza, pode acabar prejudicado e distorcido
se cairmos no costumeiro da rotina, o
encanto pela vida também pode ser perder quando passamos a viver no mais puro
automatismo. E isso tem acontecido com muitas pessoas que acompanho. É como
se as coisas perdessem o brilho, a cor, o calor de outrora. É como se agora já
não tivessem nada a oferecer. O passeio no parque deixou de ser entusiástico, a
viagem à praia deixou de ser aguardada e o Natal, a época mais iluminada e
saborosa do ano, parece ter perdido sua luz e seu sabor. Mas não são essas coisas que deixaram de ter os seus encantos. São os
nossos olhos que se tornaram incapazes de contemplar beleza na mais sutil
manifestação. Isso porque parece que estamos sempre em busca do grandioso,
do impressionante, do inebriante, e não nos permitimos impressionar pela
delicadeza do sobrevoar de tantas aves que, ao cruzarem o vento, cantarolam por
sobre nossas cabeças. Não nos permitimos, nem mesmo, a um encontro com a Lua.
Ela é tão bonita. E é tão inspiradora... Às vezes fico olhando para ela,
admirando sua formosura, e sendo levado a tantos devaneios que apenas ela
conhece. Isso me restaura e me tranquiliza. Isso me encanta.
Quer ser encantado pela vida? Permita- se ao encantamento. Se você fica sempre em busca do
robusto e volumoso, daquilo que chama a atenção pelo espaço que ocupa ou pela
luz que irradia, poderá perder de se contagiar pelo sorriso sutil de uma
criança ou pelo belo beijo afável de um senhor trêmulo por sobre a testa de sua
companheira de anos... Não que coisas grandiosas não possam ser encantadoras.
Elas podem. Mas quanto mais grandiosas forem, mais expectativas criaremos
quanto ao que virá depois. Ao passo que
se estivermos no mundo em uma postura interessada e curiosa, mesmo uma trilha
de formigas pode despertar em nós os mais encantadores dos devaneios. Como
conseguem trabalhar em tanta harmonia? Como conseguem se reunir em torno de um
mesmo objetivo de forma tão ordeira? Não teríamos nós, seres humanos dotados de
tantos recursos, muito a aprender com elas?
Aí me remeto a outra coisa extremamente necessária nessa busca por se encantar: precisamos de humildade. Aquele que pensa que nada tem a aprender com uma formiga não entendeu que o encanto da vida está no oculto, no improvável, naquilo que ninguém percebe. O Natal é sempre o Natal, sua magia está no encontro e naquilo que ele proporciona e que apenas um coração atento é capaz de notar. O encanto do Natal não passa pelas luzinhas piscantes, pelas árvores bem enfeitadas ou pelos presentes magistralmente embrulhados. Essas coisas são legais e são interessantes... Mas não são encantadoras. O encanto dos presentes está em saber de quem o recebemos. O encanto das luzinhas e das árvores está no processo de retirá-las das caixas, desembaraçá-las e, então, montá-las na companhia de alguém que amamos... Coisas sutis. Que não são grandiosas. E que por isso mesmo são encantadoras: coisas que não precisam de muito para nos fazer felizes, basta que a elas estejamos disponíveis. A vida tem estado sem encanto? Será que você tem estado disponível à vida?
(Texto
de Amilton Júnior - @c.d.vida)
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