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[Reflexão] O perigo de se acostumar com a vida

 


A felicidade, como concebida pela sociedade contemporânea, não existe para Arthur Schopenhauer, filósofo considerado pessimista que nos ajuda a compreender que a vida humana é permeada por um constante estado de insatisfação, insuficiência e infelicidade.

 

Mas calma... Nem tudo está perdido!

 

É, antes de tudo, importante compreendermos o quanto somos bombardeados, nos tempos presentes, por uma positividade descrita como tóxica que nos faz acreditar que a felicidade é algo a ser alcançado a qualquer custo, pois, apregoa-se, é exatamente o que merecemos. Só que essa é uma forma de pensar muito recente, que ganhou força conforme o espírito individualista passou a dominar nosso tempo, convencendo-nos do quanto somos absolutamente responsáveis pela felicidade da qual queremos usufruir.

 

O que é, em partes, um erro.

 

E é um erro porque nossa vida é recheada por situações e circunstâncias que fogem ao nosso controle, como nos ensinam os estoicos. Se, portanto, há coisas que não dependem de nós, como podemos nos condenar à conquista da felicidade como algo que depende exclusivamente de nossa vontade e ação no mundo, sendo ela influenciada por elementos sobre os quais nem sempre possuímos domínio?

 

É claro que podemos fazer escolhas que nos aproximam do contentamento, mas ele não é algo que, uma vez desfrutado, estará para sempre garantido – isso simplesmente não acontece dessa forma.

 


Schopenhauer nos ajuda a compreender que a dor é o que nos move. E não precisamos ler “dor” simplesmente como aquela experiência desagradável que nos atravessa quando, distraídos, cortamos o dedo ao invés da cebola – apesar de essa dor também valer. O filósofo quer que pensemos em algo mais profundo que dores físicas, e nos convida a olhar para nossos desconfortos emocionais. Se a sede, por exemplo, vai e vem, de modo que nunca é definitivamente saciada, nossos desejos também seguem o mesmo fluxo – algo que o mercado soube observar muito bem.

 

Não basta estar empregado, queremos uma promoção!

Não basta ter filhos, queremos que sejam os mais talentosos!

Não basta ter um celular, queremos o último lançamento!

 

Nada basta, pois vivemos no seguinte ciclo: algo nos desconforta, gerando desejo de alívio; alívio que, uma vez alcançado, é momentâneo e passageiro – acostumamo-nos com nossas conquistas; esse “acostumar-se” gera tédio, que gera desconforto, que gera desejo, que gera busca de alívio, que gera conquista, que gera tédio, que gera desconforto...

E isso nunca tem fim.

Adivinha?

A dor não acaba.

E a felicidade não é exata e definitivamente alcançada.

 

Claro, é Schopenhauer falando.

Mas estou inclinado a concordar com ele.

 

No fundo, essa é uma ideia esclarecedora – talvez até libertadora! Ao menos pode nos ajudar a ficar imunes contra discursos superficiais daqueles espertalhões que só querem vender curso prometendo que encontraram a fonte do prazer e da felicidade (ou são leigos ou são astutos – prefiro acreditar que vivem em ingenuidade). E pode ainda nos aliviar do fardo de ter que dar conta de algo que acreditamos que deveríamos conquistar, possuir e jamais perder.

 

O fato de sermos movidos pela dor, pelo desconforto, pelo incômodo, pela falta de algo, pode nos esclarecer quanto à efemeridade do prazer. Ele passa. Pois, para o filósofo pessimista (ou seria realista?), o desejo nunca acaba. Ao contrário, o desejo está sempre se renovando, de modo que parece que estamos sempre insatisfeitos – estaríamos aprisionados nesse looping?

 


O que Schopenhauer talvez não tenha dito exatamente dessa forma, mas que me fez pensar, é que deveríamos sair do automatismo e ficar mais conscientes em relação aos eventos da vida. Sabe aquela sensação tão agradável de quando a pessoa que você ama repousa em seu ombro? Pois é... aproveite enquanto dura. Mas aproveite de verdade. Não tenha isso por garantido, conquistado, porque a natureza humana tende a se habituar àquilo que tomamos como costumeiro. Em Psicologia chamamos isso de adaptação hedônica, expressão elegante para dizer que nos acostumamos com a rotina. Mas há uma armadilha aí. Isso porque podemos nos acostumar com as mensagens românticas de nosso namorado ou os presentes inesperados de nossa namorada, e achar que isso sempre será assim. Só que... adivinha! Uma hora, sobretudo pela nossa falta de reconhecimento aos esforços do outro, isso pode acabar, tornar-se ausente e, então, tornaremos a desejá-lo com dor.

 

Esse é nosso erro.

Aquele velho ditado de que só valorizamos quando perdemos poderia muito bem ter sido dito pelo discurso sábio e sofisticado de Schopenhauer. Pois, para o filósofo, estamos sempre em busca de algo que nos falta e que, uma vez garantido, deixa de nos fascinar. Mas, então, ao perdermos, não é que volta o fascínio? (Isso sou eu falando). Reconhecemos, enfim, que tínhamos em mãos algo valioso!

 

Se parássemos aqui, restaria apenas o pessimismo, mas eu não sou tão pessimista quanto possa parecer e, embora concorde com boa parte do pensamento de nosso colega, não me entrego totalmente a ele – acho que seria deprimente. Pego essa sabedoria tão verdadeira e inquestionável para adotar uma forma diferente de estar na vida: exercendo a contemplação! (Sim, fui inspirado por Schopenhauer, embora sua ideia de contemplação fosse mais profunda). Evito cair na armadilha de acreditar que tudo será como é para sempre e, então, ao invés de me acostumar com o fato de que meu amicão estará sempre no quintal, faço questão de brincar com ele praticamente todos os dias.

 

Entende o que quero dizer?

 

Tento travar uma luta contra a constante insatisfação que faz parte da natureza humana. Claro que nem sempre dá certo, afinal, acabei de tomar um pouco de água e, tenho certeza, esse meu corpo sempre tão pidão estará clamando por mais daqui a quinze minutos... Mas tudo bem, isso é questão de sobrevivência. Entretanto, acerca de outras coisas prefiro me manter atento, caso contrário, corro o risco de percorrer eternamente a estrada do descontentamento, como aquele sujeito que, ao conseguir seu primeiro emprego, agora cobiça o cargo de supervisor, mas, não satisfeito, almeja o de gerente, que ainda não lhe é o bastante: quer ser diretor... Mas isso também não basta, agora quer ser diretor-geral e logo se entedia ao conquistá-lo. Sonha com a posição de CEO, o topo do topo, mas, então, ao ver a vista lá de cima, sente que nada valeu a pena.

 

E não vale mesmo.

Ao nos rendermos tão cegamente aos nossos desejos, fadamo-nos a uma existência de muito desejar e pouco viver.

 

(Texto de Amilton Júnior - @c.d.vida)





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