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[Reflexão] Aprender exige espaço

 


O conteúdo desse texto pode ser acompanhado pelo vídeo a seguir:

 

 


 

Há uma história muito inspiradora que, em tantos momentos, me ajuda a retornar para uma forma de viver mais consciente, pacífica e atenta ao que acontece ao meu redor. Ela narra sobre um discípulo, cheio de verdades absolutas e questionamentos que mais pareciam buscar pela confirmação de suas hipóteses, do que por respostas que pudessem realmente transformar sua forma de entender a vida.

 

Um belo dia, porém, como parte de sua formação, o discípulo se achegou ao mestre responsável pelos seus ensinos. Sentou-se diante do homem mais velho e começou a discorrer sobre suas ideias em relação às coisas, mal dando tempo para que o ouvinte paciente pudesse respondê-lo. O discípulo questionava o quanto se sentia confuso por aquilo que vinha aprendendo, o quanto tentava ver sentido em conteúdos que, aos seus olhos, pareciam tão vagos e fortuitos. Não se dava conta, porém, de sua forma de agir: cheio de palavras, não se permitia ao desvelar do silêncio.

 

O mestre, compreendendo que não adiantava ir pelo caminho do discurso, tratou de servir o discípulo com uma xícara de café. Enquanto o jovem impaciente falava sem cessar, o experiente homem começou a despejar o líquido esfumaçante, ao ponto de derramar. Só assim o discípulo parou com seu falatório e voltou a atenção ao que acontecia em seu momento presente.

 

“O que foi isso?”, perguntou impressionado, esperava equilíbrio e atenção daquele a quem questionava, jamais um gesto de descuido.

“Jovem rapaz, sua xícara está muito cheia, derramando de tanto conhecimento e arrogância. Quando você esvaziar sua xícara, volte para continuarmos o treinamento. Hoje, dentro de você não cabe mais nada”, o mestre respondeu.

 

 

Quantas vezes nos colocamos diante das pessoas ou mesmo nos apresentamos à vida com nossas xícaras repletas de conteúdo, não é? Sem o mínimo espaço para que algo seja acrescido, para que sejamos ensinados, para que possamos ser enriquecidos por algum ensinamento novo, diferente, vindo de alguém que tanto tem a ensinar.

 

Mantendo-nos em nossa postura de “sabe-tudo”, como se não existisse nada que nossos olhos pudessem ter contemplado ou que nosso intelecto pudesse ter alcançado, agimos de forma arrogante, por vezes soberba, sem a humildade e disponibilidade necessárias para que pudéssemos ser tocados pelos renovos da vida, pelas novidades da existência. Não nos damos conta de que nessa atitude não resolvemos nossos questionamentos, apenas os fortalecemos por nos aprisionarmos em nossos preconceitos sobre o existir.

 

A xícara, nessa história, é uma bela metáfora para tudo aquilo que trazemos conosco – muito sem nunca ter questionado. São valores rígidos, crenças limitantes, opiniões que rotulam, modos de ser e agir que tentam moldar a experiência ao nosso próprio prazer. Apegados a essas coisas, questionamos os valores dos outros, desdenhamos suas crenças, minimizamos suas opiniões e abominamos seus modos peculiares, únicos e singulares de passarem pela longa estrada da vida. Aprisionados em nossas visões, não nos permitimos à contemplação de paisagens novas, diferentes, mais bonitas, mais interessantes, mais inspiradoras...

 

Se deixássemos nossas xícaras de lado por um pouquinho que fosse, poderíamos ter a oportunidade de sermos tocados pelas outras pessoas, pelas outras formas de vida, pelas outras maneiras de entender a realidade. Aumentaríamos nosso repertório, nossa compreensão seria ampliada e poderíamos encontrar respostas que há muito tempo vínhamos buscando, mas que, por insistirmos sempre nas mesmas fontes, jamais encontramos. E, ainda que não adotássemos as visões diferentes como algo a seguir em nossa própria jornada, não agiríamos sob o equívoco de acreditar que nossa forma de ver o mundo é a única possível, antes aprenderíamos a respeitar que cada homem e cada mulher tem o direito de criar a própria história!

 

Fica, então, o convite para que nos libertemos da rigidez. Não é um apelo para que joguemos fora nossas xícaras, para que renunciemos àquilo que, de alguma forma, compõe nossa identidade. É um convite para que suspendamos, momentaneamente, tudo aquilo em que nos agarramos para que tenhamos a oportunidade de nos renovar naquilo que fizer sentido. Se uma árvore mantém presa a si as folhas que já morreram, jamais voltará a irradiar a beleza de folhas verdes.

 

(Texto de Amilton Júnior - @c.d.vida)





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