Temos
nossas individualidades, aquelas coisas apenas nossas e que, de certa forma,
ajudam a compor nossa identidade. São coisas que, em muitos momentos, nos
diferenciam das demais pessoas que habitam o mundo. Seja um modo de falar,
um gosto musical, uma preferência artística ou mesmo a apreciação por
determinado estilo de vida. Algumas dessas coisas nos acompanham desde que
éramos crianças e, aprendendo com os nossos avós que um cafezinho depois do
almoço cai bem, não deixamos de fazê-lo mesmo depois de crescidos. Outras
dessas coisas conquistamos na adolescência, aquele período de descobertas e
redefinições, quando passamos por uma necessária diferenciação entre nós e
aqueles que nos cercam e entendemos que rock é o nosso gênero predileto! E
também há coisas que descobrimos depois de grandinhos, até mesmo velhinhos,
como a diversão que encontramos naquele jogo de videogame que o nosso neto de
doze anos nos convidou para jogar… Enfim, somos compostos por particularidades
que nos constroem. Infelizmente, no entanto, é exatamente por elas que por
vezes somos julgados, criticados e até mesmo condenados a uma rejeição que dói.
Isso porque são características com as quais não concordam ou que não
correspondem aos ideais que formaram a nosso respeito sem nem ao menos nos
consultarem sobre o que a nós faz ou não sentido. Sentimos o desconforto de
não sermos aceitos. Alguns, embora sentindo a dor, não se incomodam em serem
aceitáveis aos outros, estão mais preocupados em viverem uma vida que
seja aceitável a eles mesmos. Outros, no entanto, incapazes de lidarem
com os olhares de reprovação, submetem-se às exigências e sentem-se
confortáveis na escolha que fizeram. Conforto que, tenho para mim, é
irreal e fantasioso, pois, acredito, ninguém merece acabar prisioneiro de si
mesmo.
“Ser quem somos exige coragem
para renunciar ao conforto de ser o que os outros esperam” (@pabloversos)
Sendo
quem somos livremente ou sujeitando-nos a sermos o que esperam de nós, corremos
riscos da mesma forma. Isso porque, ao assumirmos nossa autenticidade,
teremos que conviver com comentários e olhares que nos desaprovam em nossa
existência. Ou, ao contrário, vestindo o figurino e participando do roteiro que
escreveram, conviveremos com a dor que em nosso peito amargará por sabermos que
aquela não é a peça que somos de fato capazes ou desejosos de viver. Em
ambas as situações nos encontraremos em um lugar de desconforto. Resta saber
qual delas é menos desconfortável. E tenho para mim que conviver com os
olhares impiedosos daqueles que não podem entender o prazer que é ser quem
somos é menos desconfortável do que estarmos condenados dentro de nós mesmos,
contemplando diante de nossos olhos todo um universo de possibilidades e
privando-nos de usufruirmos de tudo aquilo que nos é disponibilizado. Uma
coisa é estar preso por alguém. Outra coisa é termos a compreensão de que somos
nossos próprios carcereiros. Prefiro voar livremente, ainda que, de seus
lugares limitados, me apontem dedos tortuosos, do que entrar numa gaiola por
conta própria e forjar uma cantoria que agrade a quem a ouça, mas que doerá em
quem a canta por não ser a canção que verdadeiramente gostaria de entoar. Se
aceitam a personagem que criei, significa que não aceitam a pessoa que sou. E
isso, tenho para mim, é mais desconfortável do que ser rejeitado pela minha
verdade. Pois, aceito na personagem, saberei que renunciei à autoria da minha
própria história, enquanto que, rejeitado em minha autenticidade, saberei que a
história é minha e dela participará apenas quem eu quiser e puder me aceitar.
(Texto
de Amilton Júnior - @c.d.vida)
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