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[Reflexão] Temos tanto. Mas vivemos nada

 


Os dias passam e é como se nada tivesse sido vivido. Até podemos ter a impressão de que estivemos ocupados com muitas coisas, mas esse é exatamente o problema. Fragmentados em tantas distrações, não conseguimos estabelecer um senso de continuidade e permanência em nossas experiências, restando um vazio interior que só seria preenchido pelo enraizamento daquilo que estamos vivendo.

 

Esse vazio, no entanto, não é resultado de faltas. A curiosa questão é que vivemos em tempos de intensa fartura. Muitas são as opções com as quais podemos preencher nosso tempo, e muitas são as possibilidades relacionais a nós apresentadas. É sábado à noite, mas não quer sair de casa? Abra os inúmeros serviços de streaming e se delicie com um cardápio infinito. É sexta-feira e gostaria de sair com alguém? Entre em aplicativos de relacionamento e, então, escolha a opção que mais lhe atrair.

 

Mas não se preocupe em ter que viver tais possibilidades até o fim.

O filme não o cativou em seus primeiros minutos? Simplesmente troque.

Aquela pessoa não é tudo o que imaginou? Há milhares de outras esperando pelo seu coraçãozinho.

 

E, assim, não nos demoramos em experiência alguma, em relação nenhuma, justamente o que se faz necessário para que sejamos nutridos por aquilo que há na vida e que verdadeiramente poderia nos enriquecer. Sendo esse um dos fatores que nos ajudam a entender o crescente número de pessoas que experimentam um vazio profundo e uma solidão inexplicável, além de uma insatisfação paradoxal.

 

Temos tanto.

Mas vivemos nada.

 

Isso porque para que tenhamos um senso de história, de narrativa, alguns elementos se fazem necessários, dentre eles a repetição e a continuidade. Um estudante, por exemplo, para obter o aprendizado necessário para o exercício de sua profissão, precisa repetir certos conteúdos a fim de assimilá-los, mas também precisa avançar nos materiais que estuda para que, assim, seja capaz de construir um senso de conhecimento sobre aquele assunto.

 

Se o estudante, porém, nunca retorna ao conteúdo trabalhado, falta às aulas ou mesmo interrompe sua formação, não terá esse senso construído e, deparando-se com desafios que exigiriam tal conhecimento, não saberá como resolvê-los.

 

Na vida é assim. Nessa busca insaciável pela novidade, pelo lançamento, por aquilo que é prometido como promissor e mais benéfico, não repetimos nossas experiências nem nos permitimos à construção de uma continuidade em nossas histórias. Interrompemos o fluir da vida antes que seus eventos se concretizem. Dessa forma, não há profundidade. Sem profundidade, então, tudo fica superficial, raso, não nutre.

 

Ficamos esvaziados.

 

Para além de esvaziados, ficamos sobrecarregados em um nível cerebral. Nem todos se apropriam desse fato, mas existe um conceito conhecido como “custo de troca de tarefa” que explica que a cada mudança naquilo que está fazendo, indo da atividade A para a atividade B, há a necessidade de um reajuste cognitivo, com redirecionamento da atenção, ajustamento da memória e adaptação ao novo contexto. Só que isso não acontece gratuitamente, há um gasto significativo de energia.

 

Imagine isso acontecendo o dia inteiro.

Até mesmo de forma desnecessária.

 

Isso porque tantas das atividades nas quais nos envolvemos ao longo de nossos dias não eram de fato necessárias. Comemos assistindo a vídeos. Caminhamos ouvindo podcasts. Lemos com músicas soando nos fones. E conversamos com dezenas de pessoas ao mesmo tempo através das redes sociais. Não que essas coisas não possam ser vividas eventualmente, pode ser que às vezes queiramos fazer um breve passeio no parque ouvindo canções que nos conectam com lembranças agradáveis. A questão é que essas coisas acontecem de forma repetida, indiscriminada, tornando-se um hábito adoecedor.

 

Além de sobrecarregados, ficamos anestesiados.

 

Ocorre que para além de um esgotamento mental, tornamos ao que já discutimos aqui. Sem espaço entre uma experiência e outra, sem investimento de tempo naquilo que se é vivido, as situações não se corporificam em nós. Não as vivemos nem sentimos de fato. Não ouvimos uma música calmamente, apreciando a letra, a harmonia, deixando-nos transformar e tocar pela melodia. Não nos permitimos uma conversa de qualidade, com tempo e paciência, prestando atenção nas palavras usadas por aquele diante de nós, sua entonação, seu modo de articular o discurso e seu jeito tão peculiar de usar metáforas...

 

Passamos pelo mundo, mas não permitimos que o mundo passe por nós.

E depois reclamamos do sentimento de vazio que impera em nossos dias.

 


O convite hoje é para que nos afastemos um pouco desse modo de vida frenético e hiperestimulado e possamos nos aproximar de um modo de viver mais calmo, mais presente, estabelecendo relações verdadeiras com aquilo que está disponível para ser vivido.

 

Que ao nos deliciarmos pelas páginas de um livro, tenhamos o prazer de perceber ali os detalhes que fazem a diferença na história. Que ao saborearmos nosso prato favorito, tenhamos o deleite de notar o sabor único que a apenas a combinação daqueles temperos poderia causar. Que ao estarmos diante de alguém, livres de expectativas de como aquele encontro deve se desenrolar, possamos aprender mais sobre o seu universo inigualável. Que ao viver, tenhamos paciência, entrega, disponibilidade e presença.

 

Esse pode ser um caminho necessário para que sejamos capazes de lidar com o vazio que nos assola. Vazio que não será preenchido por aquela bolsa de mil reais, nem por aquele carro que vimos no anúncio, muito menos por aquela viagem tão explorada pelo marketing. Vazio que só pode ser preenchido por experiências que a nós sejam significativas, alinhadas com nossos propósitos e vividas com profundidade e sem perder de vista que nem sempre é de novidade que precisamos, mas de atribuir valor àquilo que já temos!

 

(Texto de Amilton Júnior - @c.d.vida)




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