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[Reflexão] Buscas

 


Por vezes esperamos receber algo de alguém. E ficamos na expectativa de que ele consiga contemplar os intentos de nosso coração. É problemático, quando, sem dizer palavra alguma ou esboçar qualquer desejo, imaginamos que ele adivinhará nossos pensamentos. Isso nem sempre acontece, pois, como diziam os nossos avós, ninguém tem uma bola de cristal. Acabamos, de certo modo, decepcionados. Decepção que dirigimos ao outro quando que, na verdade, deveríamos assumi-la como nossa: a expectativa nos pertencia, o desejo habitava em nosso íntimo, nós que não soubemos administrar nossas necessidades e sermos claros ao expressá-las àquele que considerávamos capaz de atendê-las.

 

Necessidades que, também por vezes, não caberiam ao outro suprir.

 

Isso porque, em certos momentos, procuramos no mundo lá fora aquilo que nos falta no mundo aqui dentro e que seria de nossa responsabilidade suprir. E nem percebemos. É como alguém que, com dificuldades para se acolher e respeitar, para se validar e reconhecer, busca tais acolhimento, respeito, validação e reconhecimento em seu relacionamento com o outro. Não que tais coisas não sejam importantes de serem encontradas nas diversas relações que estabelecemos com o mundo, afinal, não vejo como pode se sustentar uma amizade na qual não exista respeito, ou mesmo um romance que não se sustente no acolhimento. O problema é que, ao não sermos capazes de oferecermos a nós mesmos isso que nos falta, procuramos inconsequentemente naqueles que nos cercam: quantos que acabaram se submetendo a situações abusivas e dolorosas em busca de uma companhia pela qual almejavam ardentemente?

 

O que procuro no outro? Essa é uma pergunta importante a ser feita em nosso monólogo rotineiro. E que outro é esse? Porque às vezes procuro acolhimento, mas na pessoa errada. Uma pessoa que não pode me oferecer o que busco ou porque não lhe cabe ou porque ela simplesmente não consegue proporcionar tal valor. Se, incansavelmente, procuro por um tipo afável de acolhimento e lealdade em meu chefe, por exemplo, posso acabar aprisionado numa desconfortável relação de poder. Enquanto que deveria ter a noção de que esse acolhimento que busco poderia ser melhor encontrado no seio da minha família ou no meio dos meus amigos. E ainda assim é complicado. Porque talvez eu esteja procurando acolhimento num pai sempre tão distante emocionalmente e que, assim, demonstra sua impossibilidade de ser diferente. E fico ruminando sobre o que pode haver de errado comigo. Isso é equivocado. Como podemos garantir a pessoas que nos tratam com indiferença ou desprezo um espaço tão grande em nossas vidas? Talvez meu pai não seja a melhor pessoa a me oferecer o acolhimento pelo qual anseio, mas há um amigo disposto a me conceder aquilo de que necessito. Basta que eu tenha consciência da minha busca, consciência dos lugares que visito em sua procura e, assim, investir de forma mais sábia onde realmente haverá frutos.

 

Acima de tudo, que procuremos nos oferecer aquilo que buscamos no mundo. Não que seremos, então, pessoas autossuficientes, que nos bastaremos em nós mesmos e jamais precisaremos da atenção de quem quer que seja. Somos seres relacionais, o que significa que precisamos das nossas relações com outras pessoas. O que também não significa que qualquer relação sirva. Nossas relações precisam ser nutritivas e enriquecedoras. A começar por nós mesmos. Como você pode se acolher melhor, se respeitar melhor, se validar melhor, se reconhecer melhor? Faça na medida que lhe for possível. Alimente-se do que surge do seu interior. Fortaleça sua alma e purifique sua mente. Assim não procurará tesouros em lugares inalcançáveis.

 

(Texto de Amilton Júnior - @c.d.vida)





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