O
conteúdo deste texto está também disponível no último episódio lançado no
Insight Psicologias que você pode ouvir em:
Estamos
na era da conexão, da informação, da tecnologia e da exposição. Se antes era
necessário que conquistássemos o status de popstars para, então, termos
nossos rostos exibidos em cada canto, hoje a possibilidade de viralizarmos é
imensa, bastando que nossa imagem chegue, de alguma forma, às correntezas da
internet.
Um
dos públicos mais suscetíveis a isso é o da infância.
Crianças,
normalmente, são vistas como criaturinhas fofas, cheias de gracejos que fazem
as pessoas sorrirem e se admirarem. Mesmo quando estão fazendo alguma birra,
muitos adultos veem isso como algo engraçado, divertido, digno de ser
registrado e, o que é pior, postado! Afinal, pode gerar engajamento, ou
mesmo servir como plataforma de pertencimento e validação para o quanto a
experiência da paternidade pode ser desafiadora ou o quanto querem transmitir a
ideia de serem cuidadores heroicos.
O
problema é que pouco é levado em consideração os gostos e as preferências da
criança que, retirada de seu lugar de sujeito, é colocada como material para
conteúdo.
Sharenting
é a palavra que tem sido utilizada para definir o compartilhamento
sistemático nas redes sociais, pelos pais, de conteúdos que colocam
crianças como protagonistas da cena que se desenrola, desde fotos, relatos, até
mesmo vídeos que, para além de momentos engraçados e descontraídos, também
expõem crianças em momentos de significativa vulnerabilidade emocional.
Ao
contrário de um compartilhamento restrito, privado e pontual, a exposição
digital da infância colabora para a construção precoce de uma identidade
digital de alguém que ainda está no início do processo de construção de sua
identidade concreta e que, portanto, não têm condições de definir o que seria
adequado ou não na lógica de publicização que permeia nossos dias.
O
que pode parecer inocente e descontraído, para além de questões que envolvem o
direito da criança à intimidade e à privacidade, pode afetar de forma negativa
o desenvolvimento de nossos pequenos que, um dia, se tornarão adolescentes,
fase na qual a preocupação com a construção social se aflora – construção,
esta, que pode sofrer os efeitos prejudiciais de uma narrativa construída de
forma inconsequente e irrefletida sob o risco de se tornar enrijecida.
Muitos
adolescentes já se revoltam com a forma como foram expostos quando, enfim,
conquistam a capacidade de refletir criticamente sobre a experiência. Além
disso, também apresentam dificuldade de se identificarem com a própria história
e se sentirem pertencentes a ela, pois, o que é um dos principais pontos,
não ajudaram a construir aquilo que, na realidade, nem tinham condições de
fazê-lo.
Registrar
momentos e eternizar lembranças não é, necessariamente, um problema.
Eu mesmo tenho um álbum de fotos de quando era ainda tão bebê, todo sujo de
chocolate... A questão é que esse é um conteúdo mantido na privacidade da minha
casa, com acesso permitido apenas àqueles a quem eu escolher e com quem me
sentir confortável para compartilhar trechos da minha história, ao contrário
do que ocorre às vítimas de uma exposição ilimitada que acabam sem o direito
de tal escolha.
Cabe
aos adultos se conscientizarem sobre os efeitos da prática, mas também sobre as
motivações que a sustentam. É através do compartilhamento que muitos cuidadores
sentem que encontraram uma forma de compartilhar a experiência da
parentalidade, de serem reconhecidos em suas ações como pais e se sentirem
pertencentes a um grupo de pessoas que vivenciam a mesma fase. Mas ignoram,
contudo, que acabam atrapalhando a conquista daquele que é o maior objetivo de
todo pai e de toda mãe: garantir aos seus filhos a segurança necessária para
um desenvolvimento saudável.
A
internet, pode ter certeza, está muito longe de ser um lugar seguro.
A
infância não é conteúdo. A infância é uma fase da vida, uma
parte da complexa experiência humana, na qual formamos nossos primeiros
vínculos, construímos nossas primeiras compreensões sobre o mundo e recebemos
as primeiras marcas que poderão influenciar por muito tempo a forma como nos
identificamos e narramos. Portanto, a infância não pode ser banalizada como
se fosse algo digno de ser exibido em reality show. Crianças precisam ser
respeitadas em sua dignidade e humanidade, jamais vistas como seres desprovidos
de direitos.
(Texto
de Amilton Júnior - @c.d.vida)
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