Avançar para o conteúdo principal

[Reflexão] Habitar o tempo

 


Esse conteúdo é baseado no vídeo de estreia do canal Insight Psicologias que você pode assistir em:



 


Estamos há poucos meses do final de mais um ano. E você, assim como eu, talvez tenha ouvido falas como “Nem vi o tempo passar”. Fala que se repete aos montes, entre várias pessoas e em diversos momentos. Fala que denota o quanto o tempo, embora sempre passando, não tem sido verdadeiramente por nós habitado. Reflexo da nossa pressa, do nosso imediatismo, da correria que permeia nossos dias e não nos permite contemplar a vida acontecendo.

 

Apressados, acelerados, impulsionados a uma espécie de competição cujo prêmio não sei ao certo se existe, desrespeitamos o tempo das coisas, o processo da existência, passamos por cima de nós mesmos.

 

Adentramos projetos e tentamos concretizar sonhos ignorando que existe um percurso a ser percorrido para tais concretizações. É como alguém que busca formação em alguma profissão. É necessário que ele passe por semestres de estudo, leia conteúdos que ampliem seu repertório de conhecimento para que, então, ao longo de sua caminhada, construa as bases necessárias para exercer aquilo a que se propõe.

 

Exemplo que serve para muitas situações de nossas vidas, desde decidir por entrar em um relacionamento profundo com alguém, compreendendo que essa escolha deve ser consciente e tomada com serenidade, até optar por mudar de cidade, decisão que também requer uma boa dose de reflexão. Situações que exigem de nós tempo para que as ideias possam amadurecer, se solidificar, para que nós consigamos nos organizar, ir atrás dos recursos necessários e, então, minimamente preparados, nos colocarmos a caminho do crescimento.

 

Crescimento que também exige tempo, paciência, constância e perseverança.



 

Quando paramos para observar a natureza e sermos encantados por ela, podemos, ainda, retirar da experiência grandes aprendizados. Uma árvore, por exemplo, por mais robusta e majestosa que seja, não conseguiu alcançar o auge de seu potencial na pressa, na aceleração do tempo, no pular das etapas de seu desenvolvimento. Ela não esteve “ansiosa”. Simplesmente respeitou seu processo, até gerar frutos e presentear o mundo com sua beleza. Nós, infelizmente, parecemos querer dar frutos antes mesmo de fincar raízes.

 

Mas não somos nós parte da natureza?

Então não teríamos nós um tempo a ser respeitado?

 

Ao ignorarmos isso, adentramos precocemente em contextos para os quais não estávamos preparados, desconsiderando o que era necessário para que encarássemos tais experiências. E, então, os projetos não vão para frente, os sonhos são interrompidos no meio do caminho, nossos desejos parecem voar como folha de papel ao soprar do mais sutil vento. Não é que sejamos incapazes ou insuficientes, é apenas que não fomos pacientes o bastante para habitar o tempo necessário para a nossa construção.

 

Muito dessa pressa e desse imediatismo reside nas introjeções coletivas que parecem nos reger. Uma introjeção é o processo pelo qual incorporamos uma crença, uma regra, uma forma de viver que pegamos do nosso meio, do mundo lá fora, e colocamos dentro de nós, em nosso mundo interior, como se nos pertencesse, sem fazer qualquer análise crítica ou questionamento para compreender se aquilo realmente precisa nos pertencer. É como engolir uma comida sem antes mastigá-la, dificultando, assim, o processo de digestão.

 

Em nossos tempos, algumas das mais fortes introjeções são a exigência por produtividade constante em uma velocidade insuperável. Internalizamos que precisamos estar sempre produzindo, com agilidade e rapidez, sem essa de ter tempo para contemplar a vida acontecer. Dessa forma, não olhamos para dentro, não conseguimos nos atentar às nossas reais necessidades, elas nem mesmo conseguem ter tempo para se clarificarem diante de nossos olhos, pois estamos preocupados demais com necessidades artificiais em nós implantadas, ou por nós absorvidas.

 

É como alguém que, regido pela ideia de ter que sempre entregar, não consegue reconhecer sua necessidade de descanso, anestesiando-se para qualquer sinal de algo tão essencial para o nosso bom funcionamento. Atola-se de obrigações, usa energéticos, faz todo o possível para se manter em alta performance, ao custo de viver sob o marasmo de desígnios que não satisfazem, de fato, o seu coração. Engana-se, pois até podemos nos anestesiar, deixar de sentir, o que não significa que o incômodo não esteja ali.

 

Quantos que não colapsam emocionalmente? Quantos que não desenvolvem esgotamentos emocionais intensos, adentram em processos profundamente depressivos além de serem afligidos por picos de ansiedade que os apavoram e paralisam? Resultado, ao menos em parte, da nossa falta de consciência acerca da importância de respeitar o tempo da vida, afinal, não somos máquinas – embora até mesmo elas precisam parar para manutenção.

 

A vida sem sentido de nossos dias pode ser explicada, também, por não termos tempo para o tempo.

 

É bem verdade que, dadas as desigualdades que nos cercam, pode ser difícil para tantos de nós ter uma vida de contemplação, de pausas, de serenidade, visto que precisam sobreviver em meio às condições tão precárias nas quais se encontram. Tantos outros, porém, poderiam se permitir à leitura tranquila de um livro, a um passeio despretensioso pela praia, a uma conversa sem sentido com aquele amigo querido... Mas se privam. Privam-se por achar que tudo isso é “desperdício de tempo”, que poderiam estar fazendo algo “mais produtivo e proveitoso” nesses momentos. Não despertam, porém, para o fato de que tempo é o que de mais valioso possuímos para a construção de uma vida satisfatória.

 

Um dia nossas forças se esgotarão e seremos obrigados a diminuir nosso ritmo. Será quando restará conosco apenas aquilo que fomos capazes de cultivar ao longo de nosso caminho. Se tivermos sabedoria para nutrir relações harmônicas e momentos de verdadeira presença na vida, seremos abençoados pelas memórias de momentos inesquecíveis e pela companhia daqueles a quem nos vinculamos ao longo da travessia.

 

Contudo, se desperdiçarmos nossa vida em prol de uma lógica que apenas nos adoece, nos restarão apenas as lembranças da apresentação que perdemos de nosso filho, do casamento ao qual não fomos de nosso amigo e do quanto fracassamos em manter conosco o amor de nossa vida porque não conseguíamos nos desligar das tantas demandas de trabalho. Teremos apenas recordações de uma correria desenfreada.

 

Fico, assim, me questionando o quão melancólico seria, em meu leito de finitude, ter como cenas do filme da minha vida apenas registros de papéis, prontuários e relatórios, enquanto poderia me emocionar naqueles últimos instantes recordando as gargalhadas que compartilhei, os abraços que ofertei, as conversas intimistas e profundas às quais me permiti quando escolhi habitar o tempo que me era oferecido!

 

(Texto de Amilton Júnior - @c.d.vida)




~~~~~~~~

 

Salve o blog no seu navegador e acompanhe novas reflexões às terças a partir das 06h da manhã!

 

Conheça alguns serviços:

 

Serviço de Psicoterapia Online ou Presencial

Consultoria em Psicologia

 

Você pode continuar acompanhando minhas reflexões:

 

- Perfil no Instagram (@c.d.vida)

- Página no Facebook (Coisas da Vida)

- Livros gratuitos (clique aqui)

- Ouça, ainda, o podcast Insight Psicologias no Spotify

- E não deixe de conferir o canal Coisas da Vida no YouTube!

 

É sempre um prazer receber a sua atenção!

 

 


Comentários

Mensagens populares deste blogue

[Reflexão] As suas cores

  Acho que a vida seria realmente muito chata se não houvesse música. E eu adoro ouvir as mais diversas. Meu artista favorito é o Michael. E por conta dele acabei conhecendo outros que também são incríveis e extremamente talentosos. Dentre eles, Cyndi Lauper. E há uma música que ela canta que a mim, ao menos, toca de uma forma muito profunda. Fala sobre aceitação. Mais exatamente sobre autoaceitação . Trata-se de “True Colors” que, traduzindo, ficaria como “as cores verdadeiras”. E, embora, ao longo da letra ela fale sobre aceitar as nossas cores, é perfeitamente possível que compreendamos como a aceitação de nossas características, daquelas coisas que nos distinguem das demais pessoas que habitam o planeta, elementos que, por vezes, são difíceis de serem aceitos por nós e acabam, algumas vezes, alienados, rejeitados, desprezados, ignorados. Mas são nossas coisas. São as nossas particularidades. São as coisas que nos permitem ser tão singulares e ímpares em um mundo de bilhões de ...

[Reflexão] Ouvir o cansaço

  A SENSAÇÃO DE ENFADO   Paira sobre tantos de nós a sensação de que a vida é enfadonha. Aquela sensação de arrastamento, de que para seguir em frente é necessário um tipo de esforço em nada estimulante. Não é como quando estamos extremamente engajados num projeto e varamos até mesmo a noite, envolvidos em concretizá-lo. É como se o projeto da vida deixasse de fazer sentido. O que pode guardar, em si, uma importante verdade: por vezes somos ultrajados do nosso próprio sentido, distraídos do nosso próprio propósito, passando, assim, a viver experiências que não dizem respeito aos nossos interesses nem a quem somos. Portanto, vivências sem significado.   Descansamos, mas continuamos cansados. Tudo vai bem, ao menos num nível físico. Conseguimos dormir, alimentamo-nos de forma saudável, até mesmo cumprimos com as obrigações cotidianas. Mas aquela incômoda sensação de vazio, de incertezas, permanece ao nosso lado, pairando sobre os nossos pensamentos, fazendo-nos qu...

[Reflexão] O todo é maior que a soma das partes

  “O todo é maior que a soma das partes” . Essa é uma máxima dentro da Psicologia da Gestalt que, dentre outras, é uma teoria que fornece embasamento à Gestalt-terapia , uma forma de olhar o ser humano é abordá-lo em psicoterapia sobre a qual podemos conversar em outro momento. Aqui, o que nos interessa é o significado dessa expressão que, a princípio, pode parecer confusa ou difícil de compreender, mas que, após alguns instantes de assimilação e entendimento, pode nos ajudar a encarar a vida por outros olhos, com perspectivas novas que nos façam valorizar, apreciar e até mesmo agradecer por cada parte que nos compõem.   Um exemplo bem simples – e até mesmo clichê – para que possamos compreender essa verdade é a do bolo , uma totalidade que vai para além dos ingredientes que o constroem . Isso porque não basta que agrupemos a margarina, os ovos, a farinha de trigo, o fermento, o leite e o açúcar. Não basta uma simples e limitada somatória dessas partes. Não teremos um bolo. T...