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[Reflexão] Quando a autorrealização adoece

 


NUNCA É SUFICIENTE

 

Estamos mergulhados em uma cultura que preza pela realização constante e ilimitada. Parece que sempre há algo a ser aprimorado em nós, o que, em certa medida, não é de todo errado. A questão que se apresenta, e que muitas vezes nos adoece e até paralisa, é que essa busca por aprimoramento tem nos deixado insatisfeitos com a nossa própria vida. Isso porque somos levados, ainda que de forma indireta e inconsciente, a desrespeitar nossos próprios limites.

 

Faça exercícios, estude oito idiomas, termine cinco pós-graduações, tenha o cuidado de manter suas amizades, mas também não se esqueça daquele tempinho para meditação. Atualize suas redes sociais, faça aquela aula sobre como ser uma mãe melhor, leia aquele livro sobre como ser um profissional mais eficiente, organize sua agenda de modo a não desperdiçar tempo. Conheça aquele aplicativo, esteja atento ao novo que será lançado, assista àquele filme sobre o qual estão todos falando. Viaje. Faça terapia. E jamais se esqueça de aproveitar a vida!

 

Há um detalhe em relação a essa lista, porém. Quando vemos esses itens de modo isolado, eles podem ser perfeitamente satisfatórios. Pode ser interessante que tenhamos a oportunidade de tirar um tempo para cuidar de nossas relações ou que possamos separar alguns dias para nos dedicarmos ao estudo de algum tema, por exemplo, com calma, tranquilidade e consciência daquilo que estamos fazendo, tendo a oportunidade de priorizar e fazer uma coisa por vez.

 

A questão é que essas exigências nos são postas como obrigações a serem executadas simultaneamente. E, então, começamos a ler vários livros ao mesmo tempo, damos início a vários cursos, começamos várias práticas de exercícios, e quando nos damos conta, ainda que estejamos fazendo exatamente aquilo que colocam como ideal para uma vida saudável e equilibrado, estamos exaustos, cansados, enjoados de tudo isso e até mesmo adoecidos...

 

O senso de autorrealização é algo que compõe nossas necessidades humanas. Precisamos ter liberdade para exercer nossa criatividade, vivenciar nossa autonomia e construir nossa própria vida. Entretanto, o que era um direito, passou a ser vivido como um dever: você deve ser criativo, deve ser autônomo e deve construir a vida perfeita! Mesmo que para isso precise encher sua agenda das demandas do mundo e esvaziá-la de si mesmo.

 

LIBERDADE COMO COBRANÇA

 

Vivemos, então, a cobrança pela liberdade! O interessante é que, ao longo da história da humanidade, houve um período no qual fomos afastados de tal valor, sendo levados a viver uma vida uniforme, com roteiros rigidamente preestabelecidos. Críticas se voltaram contra esse modelo, cobrando por maior liberdade às nossas vidas. E adivinhe só o que aconteceu! O que antes era reclamado como um direito foi absorvido pelo modelo criticado que o transformou em obrigação. Você é obrigado a ser livre. E essa obrigação se apresenta de diferentes formas.

 

Você precisa ser autêntico. Deve ser você mesmo, fazer aquilo que ama, descobrir sua paixão! Isso parece lindo, libertador, mas esconde algo vivido por todos nós: tais descobertas podem levar tempo e serem preenchidas por incertezas. E, então, quando olhamos para tal exigência e nossa dificuldade em atende-la, ficamos com a sensação de que há algo errado conosco. A questão é que talvez levemos uma vida inteira para dizermos com certeza qual é a nossa paixão e quem somos nós. Isso não se dá de forma corriqueira ou apressada.

 

Além de autêntico, você precisa ser empreendedor de si mesmo! Não era autonomia que queríamos? Pois então. Está nas suas mãos transformar a sua vida em uma fonte de produtividade! Gerencie seu corpo, suas emoções, seu tempo, suas relações... Seja inteligente e transforme seu momento de descanso em algo que também possa ser descrito como produtivo.

 

Regidos por tais lógicas, somos lançados ao trilho dos “deverias”. Ouvindo, o tempo inteiro, que precisamos ser autênticos, sem que a autenticidade seja devidamente explicada e problematizada como algo construído a duras penas, ou sendo levados a acreditar que precisamos transformar nossas vidas em alguma espécie de empresa da qual somos os proprietários, começamos a nos questionar quando a quem deveríamos ser, onde deveríamos estar, o que deveríamos fazer. Deverias que não costumam levar em consideração uma perguntinha simples, mas cada vez mais esmagada por esse mundo que nos exige que transformemos em algo para além de nós mesmos: O que eu quero? Parece não haver espaço para nosso próprio querer, isso porque o que de fato queremos nem sempre condiz com as expectativas de um mundo consumista que vê na exigência por transformar as pessoas em “empreendedoras de si mesmas” uma fonte de lucro.

 

Eis os livros de autoajuda que, disfarçados da ideia de “desenvolvimento pessoal”, tentam nos convencer de que se ainda não chegamos lá é porque não nos organizamos (ou esforçamos) o suficiente. Eis, ainda, os “gurus motivacionais” que, em suas palestras performáticas, tentam vender uma imagem de ser humano que nem mesmo eles possuem fora dos palcos e holofotes. O mercado da autorrealização fatura, e muito, enquanto, a cada dia, impomos a nós mesmos a obrigação de “dar certo”.

 

A DOR DO NÃO SE REALIZAR

 

Abraham Maslow, um dos mais importantes psicólogos humanistas, ao desenvolver sua pirâmide das necessidades, posicionou a autorrealização no topo da pirâmide, compreendendo que, todas as necessidades anteriores eram fundamentais para a sua conquista. E Maslow não a pintou como algo que nos transformaria em pessoas incríveis, dignas de aplausos por darem conta de uma leva significativa e pesada de exigências que nunca acabam. Não é assim que funciona.

 

Para Maslow, autorrealização não diz respeito a ser um ser humano que tem o corpo ideal, a casa dos sonhos, o intelecto incorrigível. Para o psicólogo, essa é uma necessidade que deve ser preenchida mais por satisfação interna, paz e significado da própria vida do que por dinheiro ou fama, sem dizer que o caminho até ela é singular e individual, de modo que cada ser humano a realiza de uma forma, seja através da arte, da ciência, da família ou do trabalho, por exemplo, descartando, assim, qualquer script universal do que viria a ser um sujeito que se realizou.

 

Tal visão nos poupa da dor que experimentamos quando fazemos um corte de câmera e olhamos para a autorrealização pintada pelos nossos tempos. Isso porque se ouvimos que podemos ser quem quisermos, se não conseguirmos alcançar tal proeza, seja lá o que ela queira dizer, então o problema somos nós. A liberdade de construirmos nossa própria vida, então, se transforma em uma pesada responsabilidade individual que, ao não ser atingida, nos preenche por um sentimento de insuficiência que pode alimentar um senso de vergonha pela nossa própria existência.

 

O contraste é perceptível. Enquanto Maslow nos convida a um caminho de lento e progressivo trabalho pessoal que se consolida a partir de cada conquista que fazemos, sem a pressão por formas predeterminadas ou um tempo hábil a se fazer, a sociedade que nos cerca determina uma trilha que desconsidera nossas particularidades e individualidades e ainda nos faz duvidar de nosso próprio valor.

 

Para além disso, enquanto Maslow reconhece a importância de satisfazer outras necessidades como a de descanso, de relações saudáveis e de nos sentirmos amados, por exemplo, antes de contemplarmos a “autorrealização”, a exigência social que nos permeia desconsidera que somos corpos feitos de limites e, em suas exigências por performance e desempenho, tenta até mesmo nos convencer de que precisamos arrumar uma forma de ultrapassar nossas antropológicas limitações: eis a indústria farmacológica faturando milhões com a venda de remédios e produtos que, legítimos a determinadas condições de saúde, tornam-se como fonte de “aprimoramento” para aqueles que perseguem os ideais impostos – querem se concentrar mais, querem desempenhar melhor, querem ter mais energia mesmo quando passaram a noite em claro ansiosos pelas obrigações do dia seguinte!

 

Isso ajuda a explicar o que vem sendo chamado de “pandemia de depressão”.

 

A depressão, como todos os demais quadros de saúde mental, deve ser compreendida a partir de um olhar multicausal, ao invés de ser justificada por apenas um fator. No entanto, há uma perspectiva que costuma ser ignorada: a social! Em um mundo tão demandante, que não leva em consideração nossas limitações e ainda consegue nos fazer sentir culpados por uma aparente “insuficiência pessoal”, é claro que podemos ficar mais suscetíveis a adoecimentos psíquicos, sobretudo à depressão, tão marcada por sua sensação de peso e arrastamento diante da própria existência. Não seria esse um colapso por vivermos em uma sociedade performática?

 

Gabriel Peters, em seu brilhante artigo “O novo espírito da depressão: imperativos de autorrealização e seus colapsos na modernidade tardia”, faz uma associação inteligente entre catástrofes ambientais e sofrimento psíquico. Escreve ele: “Assim como catástrofes ambientais diversas exibem o custo do desenvolvimento tecnoindustrial, o aumento nos casos de depressão pode ser visto, sob essa perspectiva, como o ‘custo’, em sofrimento psíquico, de uma civilização que exige dos corpos e mentes dos seus membros individuais mais do que eles podem dar” (grifo meu). E o autor conclui: “Nesse sentido, se pensada como efeito sistêmico de um modo de vida estruturalmente imposto aos indivíduos na modernidade tardia, a atual ‘pandeia de depressão’ é, como outras ameaças ecológicas já presentes em nosso horizonte, um alarme civilizacional. Cabe escutá-lo”.

 

Nesse sentido, faz-se necessário, em meio a uma cultura tão demandante e cruel com a condição humana, olhar para os sofrimentos emocionais por um viés que extrapole a tendência de individualizar tais questões. É óbvio que em termos de adoecimento psíquico precisamos considerar as dimensões individuais como o sofrimento que é vivido, o corpo, as emoções, as relações e a história pessoal daquela pessoa. Isso, no entanto, não pode substituir o olhar que considere elementos da dimensão social como condições de vida, exigências normativas, aceleração de nosso tempo e comparações que nos contaminam. Afinal de contas, somos seres atravessados pelo espírito de nosso tempo!

 

DIGA NÃO À AUTORREALIZAÇÃO?

 

Com isso, podemos concluir que a autorrealização é um perigo a ser combatido? De forma alguma. Vimos que ela também é uma necessidade humana. O que não é colocado é que, por vezes, ela dependerá de uma vida inteira para ser alcançada. E há um detalhe importante. Maslow estimava que ela só era vivida de forma plena por menos de 2% das pessoas, isso porque fatores como estabilidade financeira, aceitação social, segurança física e repressão podem influenciar o caminho até ela. Sem dizer que, na visão do psicólogo, a autorrealização não se trata de um destino, mas de um processo contínuo que envolve avanços e retrocessos, ao invés de ser simplesmente um troféu.

 

Para os nossos objetivos aqui, o que proponho é que não a vejamos como algo ruim, nem que devamos deixar de querer crescer ou que toda busca por desenvolvimento pessoal seja uma imposição mercadológica pura e simples. Minha sugestão é de que estejamos atentos para o fato de que o desejo de se realizar não pode assumir a forma de um critério que determine valor pessoal, sendo, então, importante que possamos diferenciar o “quero crescer” de “preciso crescer para ter valor”, pois só assim seremos realmente livres para desfrutarmos de uma vida que tenha a ver com aquilo em que acreditamos, e não condenados a uma vida que nos aprisiona a experiências que nem mesmo gostaríamos de viver.

 

Por fim, que sejamos sábios ao viver nossa história. Ela não precisa ser vista como um projeto empresarial ou empreendedor que tem que dar certo. Precisa, apenas, quando no ato de sua conclusão, nos permitir ao prazer da certeza de que a preenchemos por nós mesmos, e não pelos palpites de um mundo sempre tão insatisfeito.

 

(Texto de Amilton Júnior - @c.d.vida)


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